atómica fevereiro de 2026 | Página 10

O guia de observação de aves e fotógrafo, Frank McClintock. Foto de Maria Vieira.

Maria: Qual é a espécie mais rara ou mais desafiante que conseguiu avistar ou fotografar?

Frank: O mais raro, não sei, porque vemos muitas aves raras, mas o mais desafiante é aquele que tentas procurar por ti próprio, porque podes sempre encontrar um guia. Eu tento sempre arranjar um guia local se estiver noutro país.

Mas houve uma ave, o pavãozinho-do-pará (Eurypyga helias). Fomos à Costa Rica, estivemos à procura dessa ave durante duas semanas e conseguíamos encontrar todas as outras aves enquanto procurávamos por essa, mas nunca a encontrámos. Quinze anos depois fomos ao Equador e estávamos à procura dessa ave; estivemos lá durante três semanas e, no dia antes de irmos embora, encontrámos uma. Muito fixe.

E depois, quando estás ali, provavelmente nunca mais a vais voltar a ver, por isso passas muito tempo parado, a ser picado por mosquitos e moscas, a ver cobras a deslizarem por cima das botas e coisas assim, e ficas ali à espera que esta maldita espécie apareça e se mostre a ti.

E depois consegues aquela fotografia que te vai lembrar de teres visto essa ave, e isso dá-te muito prazer, muito prazer.

Maria: Que sentimentos experimenta quando observa aves?

Frank: Ok, então aqui em Portugal há muitas pessoas que vão caçar, o que é triste, porque disparam sobre elas e acabou, está feito. Muitas pessoas nem sequer comem aquilo que matam. Quando vais observar aves e as vês, tens exatamente a mesma sensação boa, se não ainda melhor, porque essa ave fica então disponível para outras pessoas verem, outras pessoas podem ter prazer nisso. Não estás a matar nada. Porquê matar alguma coisa?

Por isso, tiro um enorme prazer de ver aves, e tiro também uma quantidade incrível de prazer ao mostrar às pessoas as aves que elas querem ver. Eu sei que as consigo encontrar, vou à procura delas, e eventualmente encontro-as, e as pessoas ficam tão entusiasmadas por terem visto aquela espécie que tu até podes ver todos os dias, mas elas nunca veem, porque vêm de outro país e vêm aqui especificamente para tentar ver essa espécie.

É uma sensação incrível fazer outra pessoa tão feliz, e não matas nada, é ótimo.

Maria: De que forma esta atividade mudou a maneira como vê o ambiente?

Frank: Sempre me interessei muito por conservação e por ajudar o mundo natural, por isso os meus sentimentos em relação ao ambiente não mudaram, sempre os tive. Se alguma coisa mudou, foi que essa paixão se tornou ainda mais forte. É vital preservarmos o que temos agora.

Tenho feito o meu melhor no meu cantinho aqui: organizei o jardim e, há duas semanas, tivemos trinta papa-figos (Oriolus oriolus) no jardim. Estavam a fazer aqueles chamamentos incríveis durante todo o dia, e só estão aqui graças às árvores que plantei. Vi essas árvores crescerem e, aos poucos, as aves a chegarem, e isso é simplesmente fantástico.

Em julho tivemos mais de cem andorinhas (família Hirundinidae) no jardim, de dois tipos diferentes, e era impressionante vê-las tão perto de mim. Esta é a minha cadeira de escritório, e elas fizeram ninho na janela, o mais próximo possível de mim sem estarem no meu colo. É uma sensação incrível ver que confiam tanto em nós que escolhem fazer ninho mesmo ao nosso lado. É uma experiência maravilhosa.