«Não espero que se apercebam em toda a sua plenitude da beleza do caldeirão que ferve suavemente em fogo lento, com as suas emanações difusas, do poder delicado dos líquidos que se espalham vagarosamente pelas veias humanas, enfeitiçando o espírito, iludindo os sentidos… posso ensinar-vos como agarrar a fama, preparar a glória ou deter a morte…».
Quem nunca sonhou com estas possibilidades colocadas pelo professor da disciplina de poções, Severus Snape, aos alunos do primeiro ano da escola de magia e feitiçaria de Hogwarts? Quem nunca desejou uma poção capaz de nos dar força sobre-humana, aumentar a nossa inteligência, tornar-nos belos, fazer alguém apaixonar-se por nós ou simplesmente combater a falta de cabelo?
Neste artigo vamos falar-vos acerca de poções mágicas… sim, poções mágicas! Aquelas que aparecem nos filmes e séries, ou até mesmo nos livros ou videojogos. Mas já alguma vez se depararam com uma mesmo à vossa frente? Nunca viram disso, certo? Mas porque será?
Vejamos: uma poção é, fundamentalmente, uma preparação líquida destinada a ser ingerida. Ou seja, podemos considerar qualquer bebida que seja uma junção de ingredientes como uma poção. Para a próxima vez que fizeres um batido de fruta, podes passar a chamar-lhe de “poção de morango e banana”! Portanto sim, poções existem, e destas já encontras por aí nos supermercados…
Agora… uma poção *mágica* já põe a pulga atrás da orelha.
Quando juntamos a ideia de poção ao conceito de magia entramos num universo mais fascinante e misterioso…o que são, então, poções mágicas?
Passamos a explicar: as poções mágicas são, tradicionalmente, misturas de ingredientes criadas com a intenção de alcançar um determinado resultado: cura de doenças, amor, proteção ou prosperidade. É claro que a eficácia destas misturas para resultados “mágicos” e sobrenaturais é 100% não garantida, mas indiscutivelmente, estas são parte da cultura e da tradição de um povo.
Ao longo da História, vários povos produziram as suas poções mágicas, senão vejamos:
No Antigo Egito foram encontradas pequenas canecas e jarros, com a representação de Bes, uma divindade egípcia associada ao prazer e alegria. Os recipientes apresentavam vestígios de lótus-azul e de harmal. Ora, sabemos hoje que o lótus azul contém alcaloides como nuciferina e aporfina, e a planta harmal contém beta-carbolinas (harmina, harmalina, tetrahidro-harmina), que afetam neurotransmissores. Ambas as substâncias podem alterar o estado de consciência, o humor e a perceção, sendo associadas a relaxamento, introspeção e experiências simbólicas/espirituais. Estará assim encontrada, provavelmente, a sua possível utilização pelos antigos egípcios. Uma nota importante: como já se deixa adivinhar, em doses não controladas, estas substâncias são perigosas e potencialmente tóxicas!
Os gregos antigos desenvolveram o conceito de Pharmaka, termo utilizado para se referir à preparação de substâncias curativas ou venenosas de origem animal ou vegetal, por vezes acompanhado da recitação de encantamentos. Vários autores gregos escreveram acerca do uso de plantas, por vezes associando esse uso a rituais mágicos.
Também os romanos acreditavam no poder das poções mágicas. Na sua História Natural, o autor romano, Plínio, o velho, tentou compilar todo o conhecimento do mundo do seu tempo. Por isso, não poderia faltar nessa monumental obra um capítulo acerca da magia e o uso de plantas medicinais. Entre inúmeras plantas é referida, por exemplo, o meimendro-negro, que seria utilizado como sedativo e analgésico. E sim, o meimendro-negro possui propriedades analgésicas e narcóticas devido aos seus alcaloides, como a hiosciamina e a escopolamina, que agem no sistema nervoso, e é usado historicamente na medicina para dor e espasmos, mas é também altamente venenoso e tóxico, exigindo extremo cuidado na dosagem!