2 A criação de um ser com alma e consciência, algo único, resultante de teorias lógicas, conceitos científicos e com uma finalidade humana, isto é, dar um corpo como o nosso a este experimento, é estudada há gerações. Atualmente, muitos cientistas limitam esta ideia, dizendo que tal mito nunca passará de apenas um. Porém inúmeras experiências reais alimentam a investigação de uma realidade onde o monstro de Frankenstein vive. No século XVIII, Luigi Galvani descobriu que os músculos de anfíbios mortos se contraem quando dois metais diferentes tocam nos seus nervos. Este conceito, revolucionário na época, sugeriu que a morte poderia ser só uma interrupção da atividade elétrica do corpo. Se isso se provasse verdade, então restaurar essa atividade elétrica poderia restaurar a vida? Esse fenómeno deu origem ao galvanismo, a ideia de que a eletricidade poderia ser a “faísca da vida”. Décadas depois, o sobrinho deste pioneiro pôs em prática o mesmo conceito, testando-o em humanos. Giovanni Aldini aplicou correntes elétricas ao corpo de um criminoso enforcado e testemunhou que o cadáver começara a tremer (contorcendo pernas e braços) e chegando até a abrir um dos olhos. Não demorou muito para que outro cientista, Andrew Ure, repetisse o mesmo ensaio noutro cadáver, desta vez com um relato mais pormenorizado. Segundo Ure, todos os músculos do rosto do cadáver começaram a mover-se bruscamente, de uma maneira assustadora e horrível. Na sua obra, Mary Shelley descreve a montagem desta tal figura monstruosa e esverdeada, mas não menciona concretamente como consegue ela mover-se e andar, mesmo desarticuladamente. Embora noutras dramatizações da criatura, como nos filmes, ela seja alimentada por trovões e eletricidade, antes de nascer. Já é do senso comum que algo inanimado (ou sem vida) não se mexe por si só, então poderá ser a eletricidade o motor do monstro de Frankenstein? Por mais promissora que pareça esta ideia, a sua concretização, na prática, ainda é difícil. Sem um cérebro, nada iria controlar o movimento dos membros, e mesmo que a eletricidade fosse o seu estimulante, eles não passariam de tremores descontrolados.
3 Não há nada que cientificamente impeça um cientista de juntar várias partes de cadáveres para formar outro corpo. É algo relativamente simples e provavelmente seria a primeira etapa a realizar na ressuscitação do monstro de Frankenstein. Por fora pode parecer algo bizarro e com uma tonalidade anormal, mas como seria por dentro? Primeiramente, de facto é fácil juntar várias partes de cadáveres para formar um corpo, se não levarmos em consideração que é necessário conectar centenas de artérias, veias e nervos microscópicos para restaurar o fluxo sanguíneo e as sensações nervosas e motoras, o que é uma tarefa que ascende a compreensão científica do século XIX e ainda do XXI. O segundo problema é devastadoramente simples. Tecidos não vivos morrem rapidamente. Uma parte do corpo, quando removida de um organismo vivo, é imediatamente privada de sangue oxigenado, e as células acabam por morrer dentro de minutos. Atualmente, já existem diversas formas conhecidas de reanimar células e tecidos, isto é, restaurar parcialmente as suas funções após danos ou morte celular inicial. Essas técnicas conseguem reativar atividade biológica a um nível celular. As principais descobertas conhecidas são: pesquisas que já mostraram que é possível interromper a morte celular precoce, revertendo estágios iniciais de necrose ou apoptose através de inibidores moleculares; suplementação de ATP (energia celular) e oxigenação controlada. Outro avanço é o OrganEx, um sistema que foi capaz de restaurar funções celulares em órgãos de porcos mortos há cerca de uma hora, usando um fluido perfusor sintético, que contém sangue e nutrientes. A criopreservação é outra técnica consolidada, onde células e tecidos são congelados a temperaturas extremas e depois reativados sem uma perda significativa das suas funções. Essa já congelou e reativou espermatozóides, óvulos, embriões e tecidos biológicos. Por fim, métodos de perfusão e oxigenação extracorpórea permitem manter órgãos vivos fora de um corpo, preservando o metabolismo celular por longos períodos, até serem transplantados. Em resumo, a reanimação celular já é parcialmente uma realidade. Conseguimos restaurar e prolongar a vida de células e tecidos isolados, mas a reanimação completa de organismos mortos ainda está além da tecnologia atual. Dificultando ainda mais a ressuscitação deste monstro, os órgãos têm um período de viabilidade rigorosamente limitado, isto é, se, quando retirados de um organismo vivo, os órgãos não voltarem a outro organismo vivo entre algumas horas e um dia e meio (dependendo do órgão), estes ficarão inutilizáveis. Atualmente já há maneira de transplantar órgãos de alguém que faleceu dentro de um curto período. Os humanos são, até, compatíveis com órgãos de porco. Por isso, os suínos podem ajudar na criação do monstro de Frankenstein. Os transplantes da atualidade permitem que qualquer órgão, mesmo o coração, seja transplantado de um ser para outro. Isto esperando o melhor dos casos possíveis, porque um organismo, mais propriamente o sistema imunológico, pode atacar as células que não sejam “próprias” do sistema, se as recusar. Obviamente, quando Mary Shelley escreveu este livro, tal conhecimento e inovações científicas ainda não existiam e não podiam ser realizadas, mas se há uma hipótese sequer de construir este monstro, será indispensável o uso de tecnologia que não existia quando o romance foi escrito.