As ruas e a democracia. Ensaios sobre o Brasil contemporâneo | Page 81

render muito para o governo e para o país. “Poderia”, mas dificilmente renderá. Precisamos com urgência de uma reforma política e de uma reforma política que seja claramente sancionada pela população, entre na corrente sanguínea dela, seja compreendida e assimilada por ela. Sem isso, continuaremos a patinar. Houve, porém, em junho, uma questão que tirou o sono dos estrategistas, dos juristas, dos tucanos e dos dilmistas: haveria tempo e condições para que se fizesse algo sério sobre isso a ponto de influenciar as eleições de 2014? Concluiu-se que não, e o plebiscito saiu de cena tão depressa como quando entrou Plebiscitos são processos de deliberação simplificados, quase grosseiros, pois não admitem nuance. São binários: isso ou aquilo. Imaginemos os 130 milhões de eleitores tendo de decidir se preferem “voto distrital” ou “voto distrital misto”, financiamento público ou privado de campanhas, “voto em lista” ou “voto personalizado”, além de outras questões. Chegarão a alguma conclusão minimamente confiável? Prevê-se que haverá uma campanha de duas semanas para que as opções sejam defendidas ou atacadas, para que se possa refletir sobre elas e entende-las. Não é de modo algum tempo suficiente. Cidadãos comuns – escolarizados ou não, doutores ou não – não precisam saber, na ponta da língua, o que é melhor para o país em termos de sistema político. Têm palpites, mas não é de palpites que se trata. Não há consenso sobre as regras sistêmicas que deveriam prevalecer após uma reforma política. Se pusermos numa sala dez cientistas políticos – ou dez deputados, ou dez militantes democráticos, ou dez petistas –, teremos dez versões diferentes. Nas ruas, o grosso da população não tem a mínima ideia do que se trata. As pessoas podem fuzilar a tese do financiamento público só porque acham que ela tirará dinheiro da saúde e da educação. Ou acabar com a ideia de “lista fechada” só porque não querem mais partidos pela frente. II. Depois de junho. Sobre as respostas governamentais 79