As ruas e a democracia. Ensaios sobre o Brasil contemporâneo | Page 80
vida sobre sua viabilidade. Dependendo de como for encaminhado, pode até mesmo forçar o aprofundamento das
polarizações e atiçar ainda mais as ruas. É falsa a ideia de que
há um embate entre esquerda e direita no país. É má política
supor que as forças do conservadorismo estão querendo cercar o
governo federal. Não dá para ver vantagens numa eventual bolivarianização do país, e nem isso parece possível.
A proposta presidencial tem um simbolismo que vale a pena
ser preservado e valorizado. A ideia de um plebiscito constituinte só pode ser lida pelo lado simbólico, pois é inviável e atabalhoada. Reflete a dificuldade que o governo teve para escapar do
cerco a que foi submetido. Simbolicamente, porém, pode significar muita coisa: o PT finalmente aceitando a tese de uma unidade democrática maior que os partidos. Deveria ser posta à
prova. [25/06/2013]
Um plebiscito pensado para não dar certo
Ao propor a união dos partidos e instituições em torno de
cinco pactos nacionais, a presidente Dilma agiu como estadista
e, pela primeira vez em seu governo e nos de seu antecessor,
desceu do pedestal, convocou os políticos e conclamou-os a ir
onde o povo está. Fez isso, também, com a intenção inteligente
de socializar os custos da operação política com que se busca
reagir aos protestos das ruas.
O problema é o que está dentro do pacote, o detalhamento
dos pactos. Faltou-lhe assessoria técnica. Faltou-lhe tempo,
também, já que a necessidade de agir com rapidez fez com que
o pacote fosse amarrado às pressas e perdesse coerência.
O que era uma Constituinte exclusiva virou repentinamente “plebiscito popular” sobre a reforma política. É uma
fórmula simpática, amigável para parte dos manifestantes e
que bota pressão sobre parlamentares e partidos. Ela poderia
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As ruas e a democracia