As ruas e a democracia. Ensaios sobre o Brasil contemporâneo | Page 56
em que as decisões são quase sempre manipuladas. Há muita
festa e determinação, bem mais que disciplina militante. Admite-se que cada um é livre para seguir o que pensa, votar
como acredita ser melhor, sonhar o sonho que quiser. Não há
“ódio de classe” nem “ordem unida”. Somente indignação e
vontade de mudar.
Novas modalidades de engajamento seduzem antes de tudo
os jovens, mas não se resumem a eles, pois tendem a crescer
como uma espécie de paradigma da ação política. Sua característica essencial é o questionamento do ativismo tradicional,
sustentado por organizações hierarquizadas, classes sociais e
causas gerais. O novo ativista luta por direitos e reconhecimento, não por poder. Não sacrifica a vida pessoal em nome de uma
causa coletiva ou da glória de uma organização. Não se referencia por líderes ou ideologias. Age festivamente e sem rotinas fixas, valendo-se muitas vezes da sátira e do deboche. É multifocal, abraça várias causas simultaneamente. Sua mobilização é
intermitente. Muitos atuam de modo pragmático, profissionalizam-se como voluntários, buscam resultados mais do que confrontação sistêmica. Seu ambiente são as redes sociais, sua maior
ferramenta é a conectividade.
Não há, porém, muralhas intransponíveis separando velhas
e novas formas de ativismo, que se cruzam e podem se combinar de diferentes maneiras, beneficiando-se reciprocamente. Se
suas agendas contém distintas ênfases e questões, também estão
repletas de temas que somente podem ser enfrentados com sucesso se se interpenetrarem e forem articulados em uma plataforma de síntese política.
O novo ativismo pode ser uma importante alavanca de construção do futuro. Será isso, no entanto, na medida em que considerar o conjunto da experiência social e convergir para a reforma democrática da sociedade, do Estado e da política. Se tentar
evoluir solitariamente, fechado em suas causas específicas e na
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As ruas e a democracia