As ruas e a democracia. Ensaios sobre o Brasil contemporâneo | Page 140
subvertidos exclusivamente em decorrência da lógica das coisas.
Todos se tornaram dependentes uns dos outros.
A crise econômica, a falta de lideranças mundiais e as indefinições quanto ao futuro das grandes potências fizeram com
que os países emergentes ganhassem projeção política e econômica. Vários deles estão a aproveitar a situação para melhorar
sua distribuição de renda, aperfeiçoar sua gestão econômico-financeira e crescer comercialmente.
O Brasil, com isso, tornou-se uma espécie de enigma, cujos
movimentos são mais difíceis de prever e mais desenvoltos. Seus
passos têm maior audácia, seja no âmbito comercial, seja em
termos de tomada de posições e alinhamentos internacionais.
Praticando um pragmatismo complexo, pelo qual paga algum
preço, afirma-se em áreas que antes lhe estavam vedadas.
Um dos mais expressivos indicadores da envergadura adquirida pelo país é sua participação ativa naquele misto de associação e pacto que se tem convencionado chamar de Brics, o bloco
mais ou menos informal integrado por Brasil, Rússia, Índia,
China e África do Sul. Não se trata de uma união circunstancial, mas de uma operação que revela o progressivo deslocamento de poder na cena internacional.
A presença brasileira entre os Brics está impulsionada pelos resultados obtidos nas duas últimas décadas, que tornaram
o país mais maduro em termos econômicos, fiscais e financeiros, em condições portanto de projetar um ciclo mais virtuoso
de desenvolvimento. A melhoria que se observa na distribuição de renda e a estabilidade monetária indicam o legado positivo da política econômica e das políticas sociais que vêm
sendo empregadas quase sem rupturas desde a metade dos
anos de 1990.
O Brasil poderá ganhar força e relevância no mundo de diferentes maneiras. Uma delas passa pela construção de barreiras
que neutralizem os efeitos deletérios da economia internacional
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As ruas e a democracia