ANTONIO - A SUA MAIS NOVA REVISTA - SAÚDE - Primeira Edição ANTONIO - A SUA MAIS NOVA REVISTA - Primeira Ediç | Page 46

Mas e o Brasil? Somos um povo solitário ou sociável? Levantamento da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, revela que lide- ramos o ranking dos países em que as pessoas menos vivem sozinhas. Bom, né? Nem tanto. A Sociedade Brasileira de Geriatria e Geron- tologia perguntou a 2 mil pessoas acima dos 55 anos qual o pior medo que sentiam. Três em cada dez não tiveram dúvidas em respon- der que é “acabar sozinho”. O receio de não conseguir enxergar ou se locomover ficou em segundo lugar, e o de ter uma doença grave em terceiro. “Por definição, solidão corres- ponde à diferença entre o que você espera de um relacionamento e o que ele tem a ofere- cer. Por esse motivo, muitos relatam se sentir solitários mesmo vivendo em uma casa cheia de gente”, explica a neurocientista Stephanie Cacioppo, da Universidade de Chicago. Por essas e outras, será que a criação de um Ministério da Solidão, parecido com aquele do Reino Unido, teria serventia por aqui? Na opinião da psicóloga Cecília Car- mona, da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, sim. Autora do estudo A Experiência de Solidão e a Rede de Apoio Social de Idosos, ela acredita que uma pasta ou uma estrutura para tratar exclusivamente do assunto seria essencial à implantação de políticas públicas eficientes. “Estar só e sentir solidão são coisas diferentes. Estar só remete à ideia de prazer, relaxamento e satisfação. Já solidão é sinôni- mo de abandono, tristeza e desamparo. Sem o enfrentamento necessário, a solidão pode evoluir para a depressão e, em casos mais se- veros, levar ao suicídio”, alerta Cecília. Darwin também explica Em 1967, quando compôs os versos de Wave, Tom Jobim (1927-1994) postulou: “É impos- sível ser feliz sozinho!” O psicólogo John T. Cacioppo, também de Chicago, vai além: “É impossível sobreviver sozinho”. Se você está lendo SAÚDE, é porque nossos ancestrais — lá atrás, ainda na era das cavernas — se senti- ram sós. Sem vínculo social, a espécie huma- na já teria desaparecido há muito tempo. “A 50 • SAÚDE É VITAL • JANEIRO 2019 dor física protege o indivíduo dos perigos fí- sicos. A dor social, também conhecida como solidão, protegia o indivíduo de permanecer isolado”, escreve Cacioppo em Solidão — A Natureza Humana e a Necessidade de Vínculo Social (Editora Record). “Os primeiros huma- nos tinham mais chance de sobreviver quan- do se mantinham juntos.” Com a evolução da espécie, a solidão tornou-se um fenômeno histórico. Con- dição incompreendida e estigmatizada, é vista com desconfiança por uns e utilizada como punição por outros. “Na escola, as crianças birrentas são mandadas para a bi- blioteca. No casamento, uma praga comum em momentos de ódio é: ‘Você vai morrer sozinho!’ No sistema carcerário, o pior cas- tigo que existe é a solitária”, dá exemplos o historiador Leandro Karnal, que acaba de lançar O Dilema do Porco Espinho — Como Encarar a Solidão (Editora Planeta). Do ponto de vista médico, solidão não é doença. Mas possui sintomas — choro frequente, perda de apetite, baixa autoesti- ma... — e pode ser classificada como crônica ou aguda. Todos nós, em algum momento, estamos sujeitos a “picos de solidão”. Na infância ou na adolescência, quando muda- mos de cidade ou de escola. Na vida adulta, quando perdemos o emprego ou os filhos saem de casa. Na velhice, quando nos apo- sentamos ou ficamos viúvos. Existem evidências, aliás, de que, quanto mais jovem é a pessoa, mais solitária ela se sente. A geração americana de 18 a 22 anos apresentou, em uma pesquisa da Universida- de da Califórnia, o maior índice de solidão, no comparativo com as turmas de 23 a 37 e de 52 a 71 anos. Em uma investigação in- glesa, a faixa dos 16 aos 24 também compõe a dos mais sozinhos. “Na maioria das vezes, episódios de solidão, quando você muda de bairro e precisa fazer novos amigos, por exemplo, são inevitáveis e não trazem seque- las. O problema é quando essa sensação per- siste”, analisa a psicóloga Pamela Qualter, da Universidade de Manchester, na Inglaterra.