Anayde- Revista de Cultura Feminista Out.2017 | Page 56

Música Sinta A Liga Crew e a sua “sintaligação” Por Kalyne Lima Fotografia: Rafael Passos A cidade é João Pessoa, capital da Paraíba, e em meio ao turbilhão de demandas da vida contemporânea, me surge a missão de contar a história do trabalho que mais tem ocupado as horas do meu dia: Sinta A Liga Crew . Esse é o projeto que venho lhes apresentar. Primeiramente, #ForaTemer, pois sem isso nada fará sentido. Segundamente, sou Kalyne Lima, rapper, jorna- lista, conspiradora cultural e ativista. Essas atribuições foram forjadas ao longo de 20 anos de trabalhos artísti- cos e sociais na minha cidade. Após esse primeiro mo- mento de apresentações sucintas, sigo para a missão que me foi dada: contar a história do grupo Sinta A Liga Crew ; ou, simplesmente, SLC . Esse projeto marca o maior ato de resistência na vida das pessoas que o compõem, e abaixo seguem os motivos disso. O hip hop é um movimento sociocultural baseado na luta pelo combate às desigualdades. Logo, representa as minorias, faz denúncias sociais e desenvolve a arte como instrumento de transformação. Inicialmente considerado um movimento voltado à juventude, hoje é visível que atravessou gerações. Afinal, passaram-se 40 anos do seu surgimento. Entretanto, mesmo com tantos atributos interessantes, também há no setor uma questão bastante contraditória: a abordagem de pautas relacionadas às questões de gênero e à diversidade sexual. O que vemos hoje na cena nacional, com representantes gays, lésbicas, trans e afins, era algo inimaginável há alguns anos. Res- 56 Anayde – Primeira Edição – Outubro de 2017 tando à mulher inserida nesse contexto, muitas vezes, conviver com o fantasma da invisibilidade. Nesse cenário, o grupo surge com a união inicial de quatro forças: Camila Rocha, Preta Langy, Julyana Terto e eu. Basta dizer que essas eram as mulheres mais atuan- tes do rap paraibano há um ano. Não falo isso por mérito ou simplesmente vaidade. Pelo contrário, é uma consta- tação do pouco número de participantes femininas nessa cultura, mas que vem, ao longo do tempo, sendo amplia- da de forma muito bacana, inclusive em cidades do inte- rior paraibano, a exemplo de Campina Grande. Por lá têm surgido figuras femininas bastante empoderadas e atuantes na cena. Então, cansadas com a frequente invi- sibilidade conferida às mulheres do hip hop – principal- mente pelos homens – e ainda carregando estigmas, co- mo, por exemplo, o incentivo à desunião de mulheres na cultura e na sociedade em geral, essas quatro persona- gens resolveram unir forças, públicos, letras e lutas para potencializar as produções femininas no Estado. O pontapé inicial para a criação do grupo foi a abertu- ra do show de Karol Conká, figura feminina de maior projeção no rap nacional. A oportunidade promoveu o encontro destas quatro mulheres, que, provocadas a se unirem para esse espetáculo, agregaram a dançarina Gi- ordana Leite, a grafiteira Priscila Lima (Witch), a DJ Isa Queiroz e a produtora Maíra Rosas. Surgiu aí não somen- te um grupo formado exclusivamente por mulheres, mas com as mulheres mais atuantes do hip hop local.