Anayde- Revista de Cultura Feminista Out.2017 | Page 35

Artigo Belas Anaydes Por Letícia Palmeira Ilustração: Yanara Vieira L impo as lentes dos óculos, man- tenho o foco e me aguento. Para estar no mundo preciso, an- tes, estar comigo por inteiro. Penso em Clarice Lispector. Ela sozinha com seus livros e seus perso- nagens. Quantos obstáculos deve ter enfrentado Clarice para que conse- guisse escrever? Não é a questão de gênero que tento abordar. É a questão do ser. Há tantas coisas pelo caminho, tantas distrações na vida, que escre- ver é sempre uma batalha. Penso também em Anayde Beiriz, que se perdeu no tempo por causa de um amor doido. Um amigo baiano foi o primeiro a me falar de Anayde. Lem- bro que ele mencionou umas cartas e até me comparou a ela. Tenho nada de Anayde. Ou talvez tenha. Sou mu- lher, professora, amo e tento me en- caixar. Se bem que não posso afirmar que Anayde Beiriz tenha feito isso. Digo apenas o que li aqui e ali. Com- prei um livro que traz a correspon- dência amorosa da autora, que é con- siderada poeta. Li quase todas as car- tas. Parei em algum ponto que me incomodou. Eu sempre paro quando algo me incomoda. Voltando a Anayde Beiriz, me inco- modou ler da autora somente seu amor por alguns homens. Me incomo- dou mesmo. E não pelo fator feminis- ta. Algo mais forte me fez estancar a leitura. Em todas as cartas vi uma mu- lher que amava, mas que gritava, em seu lirismo romântico, para que al- guém a entendesse. Ou talvez não gri- tasse. Me senti triste ao ler uma mu- lher castrada por seu amor, que cul- minou em crime político e persegui- ção. Procuro por Anayde no Google. Vasculho tudo. E só o que encontro, pedindo perdão por minha limitação em pesquisa, é a alcunha que lhe de- ram: a pantera de olhos dormentes. Não é possível que uma mulher seja somente isso. Aquela que ofende por seu comportamento, aquela que es- creve o que sente, aquela que chora seus amores. Não aceito esta Anayde. Assim co- mo não aceito que Clarice seja apenas a solitária que escrevia. E não aceito que me digam que Virginia Woolf era maluca e se matou por isso. Não acei- to a ficção que se torna realidade. Eram todas mulheres. E escreveram. Fizeram algo mais que seus rótulos. Fizeram mais que seus livros e confli- tos. Elas viveram. E sempre que uma mulher se assume escritora, mesmo que o mundo caia sobre sua cabeça, algo brilhante acontece. Todas as pan- teras de olhos dormentes se libertam. Anayde – Primeira Edição – Outubro de 2017 35