Anayde- Revista de Cultura Feminista Out.2017 | Page 34

34 Anayde – Primeira Edição – Outubro de 2017
Crônica

Crônica Barata

Por Mayara Vieira Ilustração: Yanara Vieira
Se ninguém inventar um inseticida com um dispositivo sonoro que provoque um ataque cardíaco e mate uma barata de susto, sobreviver a uma bomba atômica será fichinha pra elas. Estão cada vez mais corajosas e desafiadoras. Hoje uma me encarou; olhou no fundo dos meus olhos e, quando ousei levantar a sandália pra ela, correu atrás de mim. Foi horrível. Mas fui mais esperta, pelo menos dessa vez: peguei um balde e a tranquei dentro no exato momento em que ela deu a curva da cozinha em direção a mim, que estava acuada e tremendo na lavanderia. Tive sorte. Apesar de corajosa, era uma barata tonta. Bateu a cabeça na quina da parede na hora da curva e me aproveitei de sua fragilidade.
Se não reagirmos a tempo, nos expulsarão de nossas casas e construirão uma sociedade mais suja e barata que a nossa; inspiradas no nosso modelo político, nos obrigarão a trabalhar de graça pra elas e a viver dos restos do que consomem às nossas custas.
Agora estou aqui, olhando para um balde que engoliu uma barata e está com a boca colada no chão sem conseguir digeri-la, torcendo para que morra sufocada e sirva de exemplo para as outras que, sei, mais cedo ou mais tarde, irão se vingar de mim.
Imagino o que aquela pobre moça na Índia deve ter passado com essa espécie indestrutível – salvo uma sandália na mão e a capacidade de mirar de longe, como os atiradores de elite. As baratas orientais são bem mais inteligentes e maquiavélicas: já estão tentando começar a dominação do mundo investigando o cérebro das pessoas. Já as baratas brasileiras... Nem quero pensar por onde começarão os testes....... Achei melhor deixar registrado esse relato. Se acontecer algo comigo, todos saberão quem foi.

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