A Voz dos Reformados - Edição n.º 172 julho/Agosto 2021 | Page 5

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Julho / Agosto 2021 | A Voz dos Reformados 5

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eformados de Montemor-o-Novo

que o « caminho é atribulado » e incerto , ao ponto de ter estado previsto um torneio de malha e , à última da hora , ser cancelado , por orientação da Segurança Social . « Tudo isto é um contra-senso . Os reformados podem estar sentados no café , mas não podem conviver na associação », criticou . No entanto , apesar das limitações , já retomaram as aulas de ginástica sénior , todas as quintas-feiras , para um conjunto de 15 pessoas . Há também muita vontade de recomeçar os ensaios do Grupo de Cantares e a perspectiva de os associados da ARPI poderem participar , assim que possível e sem custos , em aulas de hidroginástica . José Grulha destacou , por isso , as « relações magnificas » da ARPI com a Câmara Municipal de Montemor-o-Novo e com a União das Freguesias de Nossa Senhora da Vila , Nossa Senhora do Bispo e Silveiras , que « sempre nos têm apoiado ».

Lares com gente viva

Duarte Caldeira
Investigador na área da Protecção Civil
O quotidiano dos idosos a viver em lares é genericamente submetido a um funcionamento institucional que acentua o seu isolamento num espaço de vida limitado , que ignora as suas necessidades relacionais e limita drasticamente as oportunidades de cultivar a curiosidade pela vida ( que continua lá fora ). Tais condições tornam praticamente impossível que se mantenham ativos no processo de envelhecimento . A separação em relação ao mundo exterior , imposta pela instituição , não lhes permite decidir quais as atividades de que podem prescindir , quais as atividades que é indispensável manter ou desenvolver para que a sua vida conserve um sentido . A separação em relação ao mundo exterior torna os idosos dependentes da instituição e praticamente destituídos de poder sobre a sua própria vida . Considero essencial assegurar o envolvimento dos idosos na gestão e planeamento do quotidiano institucional , nomeadamente através da criação de um órgão interno com poder para se pronunciar sobre as regras de funcionamento do lar . Caberia a este órgão fazer propostas acerca da organização das rotinas quotidianas ( horários das refeições , das visitas , modos de organizar os cuidados de higiene , entre outros ), bem como participar ativamente na resolução dos conflitos entre residentes e das queixas dos residentes a respeito do funcionamento do lar . Todos estamos certamente de acordo com a constatação de que a COVID-19 veio expor as incapacidades da maioria dos lares e do modelo de cuidados a pessoas idosas , existente em Portugal . Não há ainda estatísticas rigorosas para avaliar a dimensão deste problema , mas se cruzarmos as notícias divulgadas pela comunicação social ao longo dos 15 meses da crise pandémica , com os dados oficiais que gradualmente vão confirmando a gravidade da situação , facilmente concluímos que é necessário refletir a problemática dos direitos dos mais velhos , nomeadamente quando institucionalizados em equipamentos coletivos onde , para além de expostos a vários riscos , são tantas vezes feridos na sua dignidade e na salvaguarda da sua segurança . Nos lares de idosos não se evitaram cadeias de transmissão do vírus , tardou a adoção de medidas de precaução , revelou-se uma deficiente formação de pessoal técnico e auxiliar para lidar com a situação , revelaram-se anomalias no ponto de vista da organização , da higiene , da alimentação e da disponibilização de adequados equipamentos de proteção individual , entre outras graves falhas . De tudo isto resultou o número verdadeiramente dramático de óbitos ocorridos nestas instituições . Em face do quadro que se nos apresenta de forma tão dramática , é tempo de exigirmos ao Estado que exerça a legitima defesa dos cidadãos institucio- nalizados em equipamentos residenciais e garanta , através de inspeções tecnicamente rigorosas , o cumprimento das normas em vigor para defesa da segurança e bem-estar dos ali residentes . Importa também respeitar os direitos dos trabalhadores que exercem a sua atividade nestas instituições , deixando de nelas se praticar a política de baixos salários , respeitando os seus direitos e garantindo a sua qualificação , através de planos de formação permanente . A sociedade marginalizou « os velhos » dando prioridade a valores ligados à produtividade , e à rentabilidade . É neste tipo de sociedade que os idosos são votados ao esquecimento e solidão e , consequentemente , à marginalização . A família desempenha um importante papel na resposta às necessidades dos seus elementos . Estudos demonstram que o suporte e apoio familiar são fatores protetores do risco de mortalidade . É por todas as razões evocadas que a problemática do envelhecimento e as suas consequências , exige uma profunda ponderação . Naturalmente que se pode utilizar como mote para esta ponderação a situação existente em muitos lares no país . No entanto , para ser eficaz e servir os propósitos de respeito pela dignidade e a segurança dos mais velhos , terá que necessariamente se ir muito mais longe , indo às causas em vez de nos ficarmos , apenas , pelos efeitos .