A democracia sob ataque | Page 66

dos“ grandes problemas” se havia tornado“ clara, pelo menos em suas linhas gerais e fundamentais” e que se tinha popularizado alguns pontos dos“ temas nacionais”, mas“ os quadros partidários brasileiros não se dispõem em função das soluções a serem dadas a essas questões. Ou o fazem de maneira ambígua e inconsequente. Eles se dividem e agrupam não na base de programas destinados a enfrentar as tarefas propostas pelo desenvolvimento autônomo e nacional da economia brasileira e pela reforma agrária – que são os pontos em que se centralizam as questões pendentes na conjuntura atual – e sim com vistas a insignificantes interesses de grupos partidários, quando não de simples ambições e vaidades pessoais”.( Revista Brasiliense, n. 44, nov.-dez./ 1962).
A responsabilidade maior por esse quadro cabia às“ forças democráticas e progressistas” que haviam perdido a iniciativa perante os“ fatos”, ou seja, ante os demais atores, tanto junto àqueles a quem deveriam conduzir quanto em relação aos adversários( e aliados) que, pela lógica da política vigente, terminavam por lhes subalternizar a ação. Dizia Caio Prado Jr. que, ao não se concentrar no labor de operar a“ polarização de forças segundo os problemas nacionais”, o protagonista“ democrático e progressista” deixava que aqueles problemas nacionais se disfarçassem e esvaíssem na heterogeneidade dos dispositivos partidários“ que se defrontam na arena política, bem como na vagueza de formulações inconsistentes e inconsequentes”.( Revista Brasiliense, n. 44, nov.-dez./ 1962).
O analista avaliava o tempo transcorrido do governo Jango como uma conjuntura na qual não se conseguira converter a instabilidade que se formara após a renúncia de Jânio em uma fase de“ grandes transformações capazes de encaminhar a solução das contradições pendentes”( Revista Brasiliense, n. 44, nov.- dez./ 1962). Dizia ele:“ O país atravessou, neste ano e pouco, uma das mais agitadas fases de sua política, uma sucessão de crises que vem abalando profundamente o país e chegando mesmo a colocá-lo na iminência de lutas armadas. Na base dessa agitação e crise, o que em última instância as alimenta, foi sem dúvida, como ainda é o caso, a intranquilidade decorrente do aguçamento das contradições profundas que dilaceram o organismo econômico e social da Nação e se manifestam entre outros neste efeito e sintoma tão palpável que é a crescente aceleração do processo inflacionário”.( Revista Brasiliense, n. 44, nov.-dez./ 1962).
A tese do desencontro entre“ os fatos concretos da política partidária brasileira e as contradições profundas da nossa reali-
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