A democracia sob ataque | Page 18

necessárias para incluir o Brasil na moderna economia de serviços de bens de alta tecnologia; esgotou-se a possibilidade de aumentar o Estado para atender a voracidade dos partidos por empregos, como também o nível de mordomias e privilégios e o custo da campanha; sobretudo esgotou-se o modelo de desprezo à educação de base para as grandes massas. Este é o centro e a causa principal de todas as manifestações de esgotamento.
O impeachment é o resultado das sucessões de esgotamentos que caracterizam a história do Brasil, sem que os governos seguintes tomassem as medidas necessárias para levar o Brasil adiante, de forma sustentada. O sistema escravocrata se esgotou, por ficar ineficiente economicamente e indigno moralmente, mas não fizemos a Abolição completa; o Império se esgotou, mas não completamos a República, os regimes autoritários se esgotaram, implantamos democracias conservadoras e elegemos governos de esquerda, mas não fizemos as reformas e transformações necessárias para oxigenar a economia, a sociedade, a política e a cultura que o Brasil precisa para seu futuro.
O impeachment de 2016 foi o esgotamento das forças que se consideram de esquerda e que, pelo esgotamento da direita, conseguiram chegar ao governo em 1994 e 1998, e em 2002, 2006, 2010 e 2014, mas não fizeram as transformações das estruturas sociais e econômicas do país. Trouxeram apenas mais sensibilidade social para dar continuidade e ampliar benefícios sociais e assistenciais mais generosos, mas concebidos ou criados anteriormente. Foram governos que fizeram leis que se assemelham à“ Lei dos Sexagenários” e“ Lei do Ventre Livre”, sem promover a Abolição. Nada revolucionário, apenas mais generosos assistencialmente e menos responsáveis fiscalmente, a ponto de provocar o esgotamento fiscal, com dívida, inflação, recessão, desemprego.
Uma prova desta exaustão é o crescimento dos mais radicais nomes da direita: o saudosismo do regime militar que se espalha na opinião pública atual como nefasta alternativa ao esgotamento, repetindo os erros traumáticos de 1964, não mais como tragédia, mas como farsa.
A longa luta para superar a exaustão da marcha do Brasil para se transformar em uma nação justa, eficiente, soberana, com liderança dentro da realidade do século XXI, exige uma revolução social e econômica que passa por aproveitar cada cérebro brasileiro, assegurando que o filho do mais pobre trabalhador terá escola igual ao filho do mais rico brasileiro. O caminho seguido nos
16 Cristovam Buarque