É certo que a definição do Pacífico como centro da geopolítica estratégica dos EUA antecede em muito a ascensão do intempestivo magnata ao comando da maior potência militar do globo: foi no governo Obama que o Pentágono delineou a reorientação dos planos de defesa para o desenrolar do novo século. Mas a transição de go verno em Washington, à qual se soma agora o relativo vácuo po lítico na Coreia do Sul, transforma mais do que nunca em enig ma a Coreia do Norte.
Não terá escapado ao jovem Kim, herdeiro de uma dinastia comunista na superfície e na nomenclatura, mas fundamentalmente monárquica, que os adversários exibem hoje capacidade limitada de resposta, mais ainda de resposta imediata. Com a repetição de testes com misseis de longo alcance e artefatos nu cleares, o regime norte-coreano joga um delicado xadrez geo político regional e global.
A diferença, em relação ao tabuleiro disposto durante o governo Obama, é que, hoje, os EUA fazem parte do campo das incógnitas, com um presidente que afirma, desde a campanha, a primazia do que entende como interesses próprios do país sobre o que mais se interponha a eles.
É unilateralismo, estúpido!
Houve, durante a intempestiva campanha eleitoral pela Casa Branca, quem classificasse como“ isolacionista” a postura de Trump sobre política externa. Os movimentos recentes no Pacífico, porém, sugerem que é outro o adjetivo talhado para vestir a diplomacia americana sob o novo governo. O magnata republicano jamais se disse alheio ao que acontece mundo afora: o que afirmou, e que certamente rendeu votos valiosos, foi a determinação de colocar à frente do que mais seja aquilo que identifica como os interesses dos EUA.
Em resumo, o foco do Departamento de Estado, hoje sob o comando do executivo-chefe da multipetroleira Exxon, passa a ser uma abordagem unilateral dos conflitos e contenciosos. Um enfoque que pôde ser captado na resposta inicial às novas pro vocações norte-coreanas: a instalação de sistemas antimísseis na Coreia do Sul, movimento que, ao lado do patrulhamento naval no Mar do Sul da China, provocou reação pronta e irritada do regime comunista chinês, que falou em“ consequências” – referência a possíveis represálias econômicas e comerciais.
144 Silvio Queiroz