A democracia sob ataque | Página 137

O Calvinismo e o mundo moderno
Stephanie Becker

Neste ano, celebra-se uma data importante na história do Ocidente e do mundo: há 500 anos, Martinho Lutero pregou suas 95 teses contra certos dogmas do catolicismo na porta da igreja do castelo de Wittenberg, desencadeando o processo que viria a ser conhecido como a reforma protestante. Embora sendo um movimento religioso, a reforma desencadeou uma mudança de mundo que Max Weber, em seu clássico A ética protestante e o espírito do capitalismo, classificou como decisiva para a conformação da Europa moderna.

A reforma protestante, contudo, não foi um movimento único. Ela teve uma sistematização na figura de João Calvino( 1509- 1564), que tinha apenas oito anos quando Lutero manifestou-se contra o papado na Alemanha. Ainda na Universidade, Calvino começa a se destacar com ideias protestantes e, por estudar em Paris, uma cidade muito católica, ele se viu obrigado a fugir, refugiando-se em Genebra, na Suíça, que se tornou o centro religioso do movimento que veio então a chamar-se calvinismo.
O Calvinismo é particularmente interessante porque João Calvino foi além de seus interesses religiosos e escreveu sobre o Estado, política, representação e as relações entre as esferas laicas e a fé religiosa. Quanto à política, por exemplo, ele tem pelo menos três textos que tratam diretamente sobre o Estado: seus comentários a Romanos 13, o capítulo XX do volume 4 de As institutas da religião cristã e Sobre o governo civil. Nestes textos, Calvino não aparta a religião de seu pensamento, argumentando que a primeira preocupação dos governantes deve ser as obrigações devidas a Deus. Ele atribui dois papéis principais aos governantes: a manutenção da ordem política e eclesiástica e a provisão do ensino da verdadeira doutrina cristã.
Com relação à manutenção da ordem política, o que direciona seu raciocínio é a ideia de que os governantes são autoridades instituídas por Deus e têm por função honrar os bons e punir os maus, ou seja, os que agem de forma errada, por exemplo, atentando contra outros seres humanos. Defende que os governantes devem prover segurança e paz, fazer justiça, reprimir a violência
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