( e) onde estão os aderentes da esquerda agrária? Basicamente, seus integrantes estão em espaços majoritariamente estatais, o que introduz uma faceta comum cujo exame sociológico produziria implicações de alguma problematização. Ou seja, praticamente todos os mais ativos integrantes da EA são funcionários públicos, mas esta relação de trabalho não os impede que pontifiquem sobre o rural e, particularmente, sobre os“ comportamentos sociais desejáveis dos agricultores”, sem que a vasta maioria jamais tenha tido qualquer relação direta com a agricultura e suas vicissitudes( particularmente as suas dificuldades e precariedade). Quase todos têm sua renda garantida mensalmente, mas, ainda assim, entendem legítimo pregar sobre supostas virtudes que deveriam compor o receituário comportamental das famílias rurais, especialmente as mais pobres. Em sua maioria, estão nas universidades públicas, mas muitos outros trabalham nos demais órgãos do Estado( ligados à pesquisa agrícola ou outros) e nos serviços de extensão rural, além de alguns isolados, espalhados aqui e acolá. Mas, também estão na maior parte das ONGs que atuam no campo e nas organizações sindicais ou econômicas que tem no“ rural” o seu foco de atuação.
Os estudos rurais perdem força
Na história das Ciências Sociais brasileiras, o espaço intitulado de“ rural”, tradicionalmente, ocupou no passado um lugar destacado de interesse, por razões de ampla obviedade, associada, sobretudo, às iniquidades que sempre marcaram as regiões rurais, da concentração da propriedade da terra às diversas manifestações de violência rural, da gritante desigualdade social ao seu corolário, que tem sido a extrema precariedade da vida social rural. Por tais razões( e muitas outras), o interesse dos cientistas sociais sobre os processos em curso nas regiões rurais sempre se manteve forte.
Mas esta é característica que durou apenas até os anos noventa. No último quartel de século, este foco de interesse foi sendo esmaecido e, gradualmente, os antigos colegas da área substituíram as suas áreas temáticas de pesquisa. O país urbanizou-se fortemente e, do ponto de vista produtivo, a agropecuária tem respondido às demandas do mercado interno. O antigo Brasil rural, de conteúdo fortemente agrário, foi sendo erodido, surgindo um novo Brasil rural de conteúdo, cada vez mais, circunscrito ao agrícola e ao estritamente produtivo. Em conse-
130 Zander Navarro