A democracia sob ataque | Page 130

A esquerda agrária
Mas, o que caracteriza a“ esquerda agrária”? Quem integra este campo do pensamento social, quais são os seus espaços institucionais? Entendo que são cinco os principais aspectos que devem ser destacados:
( a) primeiramente e, sobretudo, os seguidores da EA adotam uma postura anticapitalista, mas os matizes desta orientação são muito variáveis em suas manifestações( simbólicas ou políticas), refletindo construções mentais muito distantes entre si. Combinam desde a exigência de repetir frases protocolares, de alguma banalidade, que seriam obrigatórias( como“ dominação do grande capital”) às infindáveis citações de frases de Marx, quaisquer que sejam, embora neste último caso apenas entre aqueles que( raríssimos), de fato, leram o autor e se apresentam sem muitos disfarces como marxistas.
Há aqui um desafio prático: separar aqueles, de um lado, que adotam posturas e leituras nitidamente anticapitalistas, sem nenhuma dúvida, e, de outro lado, aqueles que apenas parecem contestar superficialmente o regime econômico( ou algumas de suas facetas), pois estão confinados, na realidade, à crítica ética ou à indignação moral sobre os nossos incontáveis passivos sociais e suas iniquidades históricas. Como estes grupos se misturam e muitas vezes agem em conjunto, parece que a esquerda agrária real( em números) é muito maior do que é. E como o significado de“ esquerda”, em nossos dias, é desconhecido, a avaliação sobre a relevância concreta da esquerda agrária se mantém, confundindo a todos. Por isso, às vezes, a EA parece influente e ampla, mas em outros momentos parece ser o inverso, dependendo de qual dos dois grupos prevalece ou se ambos estão atuando em conjunto. Se retirado o segundo grupo, dos“ indignados morais” contra certos aspectos do regime econômico e das tragédias sociais de nossa história, provavelmente a EA de fato se mostraria surpreendentemente diminuta.
São muito negativas para a pesquisa e para a produção de conhecimento sobre o tema geral as implicações destas assumidas posturas( ainda que legítimas do ponto de vista político). Um exemplo é a recusa de realizar qualquer estudo empírico sobre os“ ricos no campo” e praticamente não temos nenhuma pesquisa sobre a burguesia agrária ou as classes patronais das regiões rurais. É comportamento tão patético que não requer ser analisado mais detidamente. Como entender o desenvolvimento agrá-
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