A justificativa
O pressuposto que anima esta curta reflexão deve ser, portanto, imediatamente enunciado. Para analisar com maior precisão os processos sociais rurais em curso no país, precisamos de um vivo e ativo“ pensamento à esquerda”. Em decorrência, o lento e gradual estiolamento ora observado nesse campo de inquirição é um desenvolvimento profundamente deletério à nossa capacidade de avançar o conhecimento mais sólido acerca da produção agropecuária e da vida social rural.
Processos sociais( incluindo os econômicos) nunca serão consensualmente explicados e, por isso, o conhecimento científico que pretende se apresentar como sendo“ a verdade”( ou, pelo menos, intenta ser a explicação mais influente) somente virá a lume a partir da existência de um ambiente de pesquisa pluralista e do confronto de visões de mundo, ideologias, teorias, modelos analíticos e paradigmas. Uma de nossas tantas tragédias é que, no Brasil, esta tem sido uma situação de rara ocorrência. A marca principal das Ciências Sociais dedicadas ao“ rural” tem sido a interdição, quando não a desqualificação imediata, de toda e qualquer produção científica que não seja a mesma adotada pelo próprio autor ou sua escola de pensamento. A fertilização do campo de debates via o confronto de ideias – um dos cânones fundamentais da prática científica – tem sido a exceção em nossa vida universitária e acadêmica.
A perda crescente de influência da“ esquerda agrária”( EA) e a diluição contínua deste campo interpretativo inevitavelmente empobrecem as possibilidades de compreensão acerca do mundo rural. Estas são tendências que precisam ser devidamente discutidas, no sentido de perceber suas causas e, eventualmente, abrir espaços para a sua reconstituição, ainda que necessariamente sob lentes teóricas novas e renovadas. Insistir, em larga proporção, na ortodoxia clássica significará, concretamente, a pá de cal nas possibilidades objetivas deste grupo interpretativo manter-se como segmento respeitável da comunidade científica que estuda os processos sociais rurais.
de 1977 e 1981. Quando submeti minha candidatura, a Universidade mantinha um“ Departamento de Estudos Marxistas”, no qual o grande nome era István Mészáros, o lendário filósofo de origem húngara discípulo de Lukács. Com a assunção de Thatcher ao poder, em 1979, esse Departamento foi extinto, em função dos cortes orçamentários. Fui aluno de Mészáros e de outro brilhante professor de Sussex, Tom Bottomore, talvez o maior marxólogo de todos os tempos.
Qual o futuro( próximo) da esquerda agrária?
127