A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 76
O reconhecimento seria suficiente para pensarmos os direitos humanos ?
não-lugar [...] o que nada tem em comum com o lugar em que
vivemos, a descoberta do absolutamente outro, o encontro com
a alteridade absoluta” (Chauí, 2008, p. 7). Como uma espécie de
utópico ao contrário, o Brasil se mostra ainda a muitos e muitas
como um não lugar em que eles e elas poderiam ser chamados
de não-sujeitos, em um lugar absolutamente outro em que a sua
própria existência ética não só é negada, como sugere Butler, mas
precisa ser aniquilada. De modo sombrio, o nosso presente não
parece ser, ainda, um lugar comum, como sugere Fornet-Betan-
court. Talvez nosso presente ainda esteja assombrado por um
ethos colonialista moderno que resiste e insiste em destruir o ou-
tro em nome do seu projeto racional, por óbvio branco e macho.
Considerações finais
Como sustenta Fornet-Betancourt parece que é preciso ir
além de um projeto teórico sobre reconhecimento e avançarmos
para a efetiva viabilização de um mundo mais justo. Parece que,
mais do que nunca, é preciso um processo de recuperação da
memória da humanidade e da categoria de dignidade humana,
e isso significa ampliar o horizonte da própria noção de direitos
humanos para muito além de uma teoria racional que, sem dúvi-
da, é necessária, porém não tem se mostrado suficiente.
Se, como afirma Kusch, a cultura é o refúgio simbólico em
que cada um de nós encontra significado para a sua própria exis-
tência, precisamos dialogar com outros universos simbólicos e
cognitivos. A postulação de Fornet de uma efetiva vivência in-
tercultural parece ser uma ponte viável para se chegar ao utópico
lugar possível de relações. Será necessário e urgente refletirmos
os direitos humanos desde estas pontes interculturais, do contrá-
rio estaremos privilegiando apenas um lado de quem fala.
Os exemplos de violações brutais de direitos humanos, pin-
çados do nosso duro cotidiano, fazem-nos voltar as nossas in-
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