A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 75
O reconhecimento seria suficiente para pensarmos os direitos humanos ?
Mas, como se não bastasse somente (sic) agredir esse outro,
que não poderia existir na concepção teórica do projeto (neo?)
colonial androcêntrico, em 02 de julho de 2016 um estudante de
Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, de 29 anos,
foi encontrado morto no campus do Fundão, próximo ao aloja-
mento de estudantes da mesma universidade, onde ele morava. O
jovem era beneficiário da política de cotas na universidade brasi-
leira (Lei nº 12.711/2012), havia nascido no Pará e era negro e gay.
Segundo entrevista do irmão da vítima, o mesmo “havia com-
prado uma briga” pois há algum tempo denunciava nas redes so-
ciais e na sua militância acadêmica outros casos de violência no
mesmo lugar em que foi encontrado morto. A investigação em
curso segue a linha de crime por homofobia e as perícias já fina-
lizadas apontam várias agressões e asfixia como causa da morte
do estudante, com o uso de um golpe de jiu-jitsu conhecido como
“mata-leão”.
Definitivamente, parece haver quem acredite que “essa gen-
te” não deveria existir “entre nós”. Apenas quinze dias depois da
morte desse jovem estudante, completaram-se quatrocentos e
cinquenta anos da morte do bispo espanhol Bartolomeu de Las
Casas, que se horrorizara com os modos “inumeráveis e infinitos”
que eram adotados “[...] para extirpar estas gentes” (2011, p. 29).
Depois de lermos reportagens como estas, perguntamo-nos,
como fez Adorno, “é possível fazermos poesia depois de Ausch-
witz?”. Um tempo depois de Adorno conhecer a poesia de Paul
Celan, diz “a dor perene tem tanto direito à expressão, como o
torturado ao grito: por isso pode ter sido errado afirmar que não
se pode escrever mais nenhum poema depois de Auschwitz”
(Adorno apud Seligman-Silva, 1999, [s.p.]).
A luta por direitos humanos nos parece sempre a luta pelo
direito à expressão. Afinal, será que imaginarmos um mundo
mais justo, que respeite a dignidade humana seria utópico por
demais? Pode-se sustentar que a utopia teria passado de um esti-
lo literário (uma narrativa, um discurso, ou um jogo intelectual)
nascido na renascença a um projeto político moderno a partir
do século XIX. Como gênero narrativo, definia-se como “[...] o
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