A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 54

Desafeição e política:para outra gramática cidadã- Anotações de trabalho às vezes, também na economia e nas mídias) que compõem os cidadãos do continente e de boa parte da humanidade. É no pró- prio mundo social onde podemos encontrar uma junção para os julgamentos realizados. Por isso, parafraseando Bauman (2001), deparar-se com a origem da insegurança e desigualdade genera- lizadas é uma tarefa que demanda, ao menos, repensar e renego- ciar alguns orçamentos fundamentais de nossas sociedades, em particular no âmbito valórico/normativo. Questão nada evidente toda vez que se apresentam difíceis agitações, dado seu carácter de presença tácita, invisível, situadas para além de toda a discus- são ou disputa. 3.4. Os elementos anteriores, em particular, os relativos aos dados e ajuizamentos práticos desde um nível descritivo-avalia- tivo, abrem para uma reflexão normativo-prescritiva, a partir da qual se trabalham critérios de crítica e prospectiva do presente. Com isso voltamos a pensar o começo destas anotações: apesar do ceticismo e o emotivismo reinantes, é inevitável que delibere- mos sobre um quadro ético. Nesse sentido, a hipótese que esboçamos aponta à necessi- dade de reflexionar em torno de outro ideário normativo para uma política democrática. Temos que trabalhar estratégias que apontem a uma resignificação moral da democracia, se queremos que nossas sociedades tenham ainda um futuro como tais. 15 A reformulação do ideário normativo da política e da democracia trabalha no marco mais amplo de descoberta e fundamentação intersubjetiva de um novo imaginário. 16 15 Castoriadis deu-se conta bruscamente das modificações que enfrenta a relação entre o humano contemporâneo e sua ideia de sociedade: “o que hoje está em crise é pre- cisamente a sociedade como tal para o homem contemporâneo (…) quer o homem contemporâneo a sociedade em que vive? Quer outra? Quer alguma sociedade? A resposta lê-se nos atos, e na ausência dos mesmos. O homem contemporâneo com- porta-se como se a vida em sociedade fosse uma odiosa obrigação que só uma des- graçada fatalidade lhe impede evitar” (Castoriadis, 1998, p.24-25). 16 Imaginários normativos que funcionariam como representações coletivas que re- gem a integração social e que permitem, e isto é muito importante, fazer visível a invisibilidade dos que ficam de fora, excluídos, preteridos, ou postergados, ou alu- miar aquelas situações sociais que se apresentam como negação da dignidade dos sujeitos. Para esta noção de imaginário social, veja-se Pintos (1995). 53 de 244