A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 48
Desafeição e política:para outra gramática cidadã- Anotações de trabalho
c.
d.
mo e o ressurgimento das identidades locais ou geográficas,
questões que conduzem à proposta de uma cidadania “mul-
ticultural”, e a prática de uma “política do reconhecimento”
(Taylor et al, 1993). Todo este processo tende a minar a ideia
substancialista de uma nação que possui uma comunidade
de origem histórica e cultural comum a todos os seus habi-
tantes;
A ação de um “liberalismo transnacional”, que nos anos oi-
tenta e noventa empurra à desmontagem do Estado social
e ao desperfilamento de suas funções distribuidas através
de políticas sociais, no entanto quanto a redução de impos-
tos fiscais afeta à viabilidade dessas políticas. O que esta-
mos presenciando é uma forte liberalização dos mercados,
uma mobilidade de capitais sem fronteiras, o surgimento
de poderosas corporações multinacionais, em muitos ca-
sos, mais fortes que os próprios Estados-Nações (Dieterich;
Chomsky, 1995); 6
Por último, constatar uma tendência à deslocação da po-
lítica por parte dos mercados, exemplificadas nas dificul-
dades das políticas sociais e na carreira por desregulamen-
tão e privatização, que invade muitos governos nacionais
(Habermas, 2000; Beck, 1998; Ianni, 1999).
Talvez entre os traços do tempo presente, há algo mais que
acompanhe a hegemonia de uma razão instrumental encarnada
na aliança entre economia-ciência e técnica: a manifestação de
uma vontade de poder, mas não como algo metafórico ou retó-
rico, senão como uma realidade, que se faz presente na domina-
ção, na perpetuação do poder sobre o fraco, indefeso, 7 irascível,
refletindo uma espécie de nova versão da conhecida lei do mais
forte, só que esta “lei” aumenta a insegurança dos fracos e dos
6 Por exemplo, os rendimentos combinados das 500 mais poderosas empresas multi-
nacionais tiveram no ano 94 um 50% maior que o PIB dos USA, dez vezes maior que
o PIB de toda América Latina.
7 Exemplificados em fenômenos como o protecionismo unilateral, a iniquidade nas
regulações do livre comércio, os regimes de investimento estrangeiro, etc.
47 de 244