A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 40
Religião e tecnociência a partir de um texto de Jacques Derrida
integridade, não contaminada por uma modernidade modelada
em particular pelas tecnociências à qual se trata para eles de se
opor, eram de fato com frequência muito hábeis em fazer uso
dessas teletecnociências, como se uma conivência secreta atra-
vessasse os dois adversários aparentes. Observemo-lo de passa-
gem, no tempo da web e das ditas “redes sociais”, esta análise
parece mais que nunca pertinente.
Derrida notava também que estes “integrismos” podem se
deixar descrever como provindo da lógica autoimunitária: de-
fender o corpo exclusivo de uma tradição religiosa em sua pureza
e sua integridade supostas ao ponto que o contato com alguma
alteridade qualquer que seja se revele intolerável. O terror exer-
cido pelo fanatismo religioso poderia provir desse movimento
de alergia a todo outro, todo outro necessariamente ameaçado
pela integridade, o “salvo”, o intocável – o sagrado precisamente.
E isso até este ponto de embalo, onde segundo a lógica do terror
analisada por Hegel, 8 jamais algum ser existente será bastante
puro, bastante “exclusivo”, “apropriado”, ao ponto que a preser-
vação do “exclusivo” ou do “si” se reverte em destruição de tudo,
e de “si” de passagem.
Não evitando em nada a radicalidade dessa pulsão destru-
tiva – pois ela está inscrita no coração da religião, atando a uma
de suas dualidades de fonte – o pensamento derridiano a afronta,
convidando a não considerá-la como a “outra” da qual se estaria
si-mesmo puro ou incólume. Ele convida a pensar que se a mo-
dernidade democrática e tecnocientífica deve se opor à pulsão
de destruição, não fugindo em nada desse combate, ela não o
fará de maneira legítima e fecunda a menos que ela ignore que
ela é dele parte interessada, que ela é ela mesma atravessada pela
dualidade de fontes em jogo e à mercê do desregramento sempre
possível dessa dualidade de fontes. Se ela o ignora, ela poderia
produzir no espelho o mesmo gesto auto-imunitário, que vê a
legítima preservação se reverter em destruição do outro e de si.
8 Conforme as análises do momento do Terror (o momento da Revolução Francesa
que se nomeia assim) na Fenomenologia do Espírito. (Nós operamos essa aproxima-
ção à qual não procede explicitamente Jacques Derrida nesse texto).
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