A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 39
Religião e tecnociência a partir de um texto de Jacques Derrida
A dualidade intricada por onde os polos da “vida salva” e da
“inscrição mecânica” se opõem, mas também se contaminam e
se tornam possíveis um ao outro, atravessa tanto a religião como
a tecnociência e governa suas relações.
E se compreende, ao ler Derrida sobre essa questão, que a
destruição, que o mal neste sentido, que pode surgir tanto no seio
de uma como no seio de outra – violência inaudita produzida em
nome de religiões desdobradas em versões que se qualifica pre-
cisamente de “integristas” de uma parte 7 , “promessas” da tecno-
ciência se revertendo em ameaças (nucleares, etc.) de outra parte –;
compreende-se então que a destruição provém do desregramento
do equilíbrio precário, sempre estruturalmente possível, da rela-
ção de uma à outra fonte. Então o mecanismo de autoimunidade
pode virar em autodestruição.
Em todo caso, se se concorda com a descrição que Derrida
propõe, não é mais possível opor simplesmente por exemplo a
religião degenerada em obscurantismo violento à tecnociência
necessariamente conexa com as luzes da razão e à sabedoria que
não pode deixar de dela resultar.
Já em 1996, nesse texto, esboçando uma reflexão sobre as
condutas de violência destrutiva associadas àquilo que se pode
chamar os integrismos religiosos, Derrida queria mostrar que se
manter à altura do embate em sua complexidade prevenia ins-
truir o questionamento após uma dualidade simples, de face a
face; implicava em não poder se conceder a facilidade de estan-
ques separações iniciais.
Caracterizando a tecnociência como sendo exemplarmente
teletecnociência – e de fato as tecnociências da comunicação à
distância têm por assim dizer a potência inaudita de manipular
e distorcer o tempo e o espaço mesmos – ele notava que os movi-
mentos religiosos “conservadores” e “integristas”, reivindicando
precisamente a radicalidade de uma tradição conservada em sua
7 Derrida oferece assim uma certa leitura da pulsão destrutiva, que em linguagem
freudiana pode-se nomear “pulsão de morte”, que pode percorrer a religião enquan-
to que esta última parece primeiro portando afirmação da vida –uma vida se preser-
vando ao ponto de nada tolerar como outro, e finalmente como “si”.
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