A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 35
Religião e tecnociência a partir de um texto de Jacques Derrida
Se se segue esta análise derridiana, então não é mais possível
opor de uma parte a “religião” e de outra a “tecnociência” como
duas figuras antagonistas, puras uma da outra, se excluindo re-
ciprocamente. Longe de poder simplesmente de uma parte fazer
recuar a “religião” exclusivamente sobre o polo “imediaticidade
viva”, e, de outra parte, fazer recuar exclusivamente a tecnociên-
cia sobre o polo “repetibilidade mecânica”, resulta que a vida e a
repetibilidade mecânica em sua relação mesma são identificáveis
como fazendo uma segunda dualidade de fontes da religião.
Assim as relações entre “fé” (como “sim” inaugural, consen-
timento primeiro) e confirmação, repetibilidade, se mantêm no
coração da religião na análise derridiana. E se compreende que
essa problemática se deixa dilatar até esclarecer as relações entre
religião e tecnociência (além da estrutura imanente da religião).
A tecnociência mesma, em sua imanência, se deixa esclare-
cer por essa segunda dualidade de fonte (vida incólume/conta-
minação por repetibilidade mecânica).
É hora de esclarecer um ponto. Nós retomamos aqui, se-
guindo Derrida, a noção de “tecnociência” para esclarecer o fato
contemporâneo das ciências e técnicas. Não seria questão de en-
trar aqui em detalhes. 5 Sublinhar-se-á justamente que os teóricos
da “tecnociência” levantam a hipótese de que há alguma coisa
de enganador na distinção entre ciência “pura”, “fundamental”,
“desinteressada” (“conhecer por conhecer”) e ciência dita “apli-
cada”, ciência aplicando um saber – puro em relação a ela e em
direito anterior – na ordem do útil e do eficaz; uma “ciência apli-
cada” – nome para a técnica moderna – que não consistiria por
sua parte em nada mais que nesta aplicação (dependendo então
integralmente da ciência dita fundamental). Fundindo os termos
de “ciência” e de “técnica” (ou “tecnologia”) no termo de “tecno-
ciência” – pode-se radicalizar a fusão indo até a omitir o hífen,
até a escrever “tecnociência” e não “tecno-ciência”.
Esta operação teórica é discutível – e não se poderá entrar
aqui nos detalhes dessa discussão. Digamos simplesmente para
5 Para enquetes recentes, Bensaude-Vincent (2009), e Sebbah (2010), onde nós nos
alimentamos da análise desse texto de Derrida continuada aqui.
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