A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | страница 34
Religião e tecnociência a partir de um texto de Jacques Derrida
tanto, a repetibilidade: a confiança que ele embreia supõe poder
ser confirmada, repetida.
Cruza-se aqui – nós não lhe indicamos senão o estritamente
necessário ao propósito – a descrição que Derrida (1972) dá da
escritura em sua relação à palavra a partir do Fedro de Platão,
descrição que Bernard Stiegler (1994) retomou, reelaborou, e re-
desdobrou em uma descrição da técnica como tal. A desenvoltura
oral onde se prova o vivido daquele que pensa e diz é submetido
ao devir e se apaga à medida em que é proferido. É a consignação
escrita – sua inscrição sobre um apoio (como tal “morto”) – que
salva a palavra de sua desaparição, de sua anulação no instante:
a palavra viva não é então salva da desaparição senão à condição
de ser mudada em letras – inscrições mortas sobre apoio mor-
to. Mais radicalmente, o que torna possível a escritura, é a repe-
tibilidade indefinida. A escritura é repetição da forma tornada
possível de uma parte pela inscrição sobre um apoio material, e,
de outra parte, pela operação de repetição exata que o seguir de
regras formais torna possível – operação mecânica e de resultado
exato. Desse ponto de vista, toda técnica deriva num certo senti-
do da escritura; no sentido em que a técnica é performance na re-
petibilidade de operações produzindo efeitos – e, deste ponto de
vista, a potência contemporânea dos computadores calculando a
uma velocidade vertiginosa faz culminar este poder da técnica.
Tal é um dos paradoxos que se mantém no coração do pen-
samento de Derrida todo inteiro e que nós abordamos aqui a par-
tir do par palavra/escritura: o vivente se deve ao sempre já de sua
inscrição mecânica e da repetibilidade que esta última assegura.
No contexto preciso de nossa problemática, este paradoxo
se oferece a nós como repetição sempre já necessária do “sim”
originário “vivido” e “vivo” que embreia toda “fé”, toda “confian-
ça”; como mecânica assegurando sempre já a perenidade disso
mesmo que se opõe a ela, a vida em sua imediaticidade e sua inte-
gridade. Este paradoxo permite num sentido pôr que a vida pura,
a pureza da vida, é uma ilusão ingênua – neste sentido preciso
que a vida não se preserva senão à condição de se deixar tocar,
inscrever e mecanizar.
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