A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 24
Os direitos, o homem, os direitos do outro homem
Há nesse vocábulo a possibilidade e o risco de uma grande
confusão. Para ir direto à questão, eu diria que esse direito do
outro homem não é evidentemente um direito. Eu acrescento que
aqueles, entre os leitores e intérpretes de Levinas, que acham que
Levinas não é claro nem rigoroso sobre esse ponto, carecem de
uma regra elementar de boa leitura desse pensador tão exigente.
Este “direito” não é um direito, que não seja! Mas como toda mi-
nha “relação” a outrem não é uma relação, Levinas não cessa de
o explicar pois ele vai mesmo até falar de uma “relação/não-re-
lação”. Levinas evoca, entretanto, um “direito do outro homem”
que seria necessário então entender em primeira aproximação
como um “direito/não-direito”. Como compreender a expressão
e como desfazer essa aparente dificuldade?
Não perdendo jamais de vista que, para Levinas, o direi-
to não é jamais primeiro. Constituído pela e na “Justiça”, ele é
precedido por um “comando inaudito”, 5 aquele de ter de amar
seu próximo sem trégua nem demora, até a substituição, até ao
des-interesse, até à assunção de uma perseguição, até à obsessão
desse outro que me sustenta de dentro de mim mesmo, segun-
do o registro próprio de Autrement qu’être. Mas resta a saber ou
a apreender como o que vem depois (o direito) se articula, ou
não se articula, com o que se mantém antes (o rosto do outro
homem). O problema é complexo e os elementos de que dispõe
Levinas não bastam certamente para regrá-lo. Parece-me que se
pode distinguir em Levinas dois tipos de “secundaridade”. Eu
venho sempre depois, o Eu vem sempre depois: isso é certo! Esse
vir-depois se deixa descrever e talvez pensar ou bem sob o modo
da filialidade ou bem sob o modo da fraternidade. Segundo o
primeiro tipo de derivação, eu sou o filho de Deus o pai, se se
quer, quer dizer que eu sou o filho de uma palavra que me co-
manda tão radicalmente que ela será sempre mais antiga que eu
mesmo. No segundo modelo de derivação (e enquanto essa pa-
lavra “derivação” convém aqui, o que eu receio!), Eu passa após,
certo, mas segundo este “após vós senhor” do qual Levinas fez
5 Altérité et transcendance, éd. cit., p. 136.
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