A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 231
Um regime de homens cínicos
motivos. A liberdade como ato político desvincula-se da política
externa de nações ditas democráticas mas que agem de forma
imperialista, aviltando contra a autodeterminação dos povos: a
França, quando na independência da Argélia, e os Estados Uni-
dos, no Vietnã. No entanto, fica em aberto o fato de Sartre apoiar
o imperialismo soviético e o terror do maoísmo na China. Em
Humanismo e terror e em As aventuras da dialética, Merleau-
-Ponty exigiria de Sartre uma coerência quase impossível entre
os homens. A história mesma envolve um contexto ambíguo. O
incoerente nas ações humanas muitas vezes é determinado por
um estado de coisas difícil de nuançar. Qual a melhor decisão
a ser tomada nessa ou naquela situação específica? Talvez caiba
um exercício de empatia. Os homens, sem exceção, agem de for-
ma incoerente pelo menos alguma vez na vida, mas as próprias
condições econômicas e políticas são controversas. Tomemos o
exemplo de Cuba. Não é minha intenção defender o socialismo
cubano ou o capitalismo internacional e nem cair em querelas,
de quem defende e de quem critica o governo revolucionário,
sobre o que seria melhor: abrir mão das liberdades civis ou dos
direitos sociais como saúde e educação? É uma pergunta equí-
voca. A luta, como só agora sabemos ao ver a carreira política
no período democrático de quem lutou contra as ditaduras na
América Latina, não era estabelecer uma ditadura do proletaria-
do aos moldes dos países socialistas e, se tinham essa pretensão,
hoje, uma boa parte dos que lutaram contra a ditadura a consi-
dera um erro. Em verdade, o que fez aqueles homens lutarem,
por exemplo, contra a ditadura no Brasil era o fato de ela ser uma
ditadura. A luta dos que combatem pelo direito à liberdade de ex-
pressão em Cuba, e esses devem ser os cubanos e nenhum outro
a mais que se aproveite da situação em defesa própria, têm seus
motivos e eles devem ser respeitados. Como será legítimo que os
que tiveram os entes queridos assassinados por um sistema de
saúde pública dilapidado pela avidez do capital privado, conjun-
to a uma classe médica preocupada com seus estilos de vida do
que com a vida dos que juraram defender, considerem que esses
perversos mereçam ser exemplarmente punidos em uma revolu-
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