A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 230
Um regime de homens cínicos
quiste. Nesse aspecto, o iluminismo se aproxima mais do judaís-
mo do que do cristianismo: se alguma coisa tiver que acontecer,
que aconteça nesse mundo! Sem Deus para guiar, a razão ocupa o
lugar de Deus; o iluminismo passa a ser a tradução, para o sonho
da modernidade, do que o judaísmo chamou de emunah: con-
fiança que, caso o paraíso exista, ele se dará não em outra vida,
senão nesta terra, aqui mesmo. Oposto ao budismo e ao cristia-
nismo, que afirmam que a verdadeira vida não é neste mundo,
o iluminismo entende que um mundo de iguais só é possível
quando arregaçamos as mangas. Está fundado no valor da ação,
em distinção a qualquer postura que remeta à inação e ao para-
sitismo. Os parasitas, pelo contrário, devem ser caçados... e os
acusados não são poucos: ora será a igreja e a aristocracia, ora a
oligarquia rural, ora, no movimento operário a partir da segun-
da metade do século XIX e que culminou na Revolução Russa, a
burguesia. É o mesmo jogo acusatório: os homens são iguais por
natureza, o que os diferencia está no que fazem. As revoluções, os
ideais, as exigências, os aplausos e as vaias sempre tiveram essa
certeza e essa tarefa como farol. O existencialismo francês, a con-
tracultura e a revolução sexual fazem parte também do cardápio.
O iluminismo constitui um movimento muito mais abrangente
do que a noção que se tem das democracias atuais.
Foi fundamento não só do que se entende atualmente por
democracia, mas também de outras correntes: mesmo o socialis-
mo, quando entendido como um modelo econômico, em vários
aspectos, oposto à democracia, no que subentende ao pluriparti-
darismo, é, desde as Comunas de Paris, de inspiração iluminista.
Certas ideias deixam de ser simples ideias e passam a ser
ideais, agem nos homens feito sangue. Séculos inteiros podem
desaparecer na poeira, enquanto existirem cérebros para ouvi-las
e senti-las, elas serão. Entende-se porque Sartre defende a liber-
dade, mas não a democracia. A democracia, como exercício de
governo, está comprometido a práticas, em vários aspectos, con-
trárias à criatividade e à emancipação. Como regime adminis-
trado por um governo, não se pode esperar da democracia mais
do que ela consegue oferecer nessas condições. Só agora vejo os
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