A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 226

Um regime de homens cínicos cara. O menos penoso seria seguir a lei. Seguir a lei é se colo- car de alguma forma no plano da objetividade. Gilles Deleuze, desconfiando de que a pretensão a uma universalidade política constituía outra farsa do autoritarismo, chama a atenção para uma geopolítica em que noções tradicionais como direita e es- querda passam a ser dois caminhos: enquanto que, quem é de direita, tende a olhar a realidade a partir do que lhe é mais pró- ximo (a rua, o bairro, a cidade, o país onde mora, a classe à qual pertence), quem é de esquerda, em movimento contraditório e desafiador, propõe-se a olhar o real a partir do outro (Deleuze, 2014). Há algo de artístico, sonhador e até poético nessa visão das esquerdas. As dores de quem vive na China tem agora a mesma impor- tância que dos daqui perto de casa. Mas os problemas são sem- pre mais complexos no plano prático. Muitos dos que se definem como de direita às vezes compactuam das mesmas ‘causas’ dos que se dizem de esquerda, defendendo as ‘causas’ até com mais fervor; como também mostra atores políticos que se dizem de es- querda agirem em nome dos interesses mais escusos da máquina neoliberal. Uma confluência de opiniões, uma babel de interesses compõe o cenário político atual. O mesmo partido político que encampou vitórias no terreno dos direitos humanos nos Estados Unidos ofereceu suporte logístico às ditaduras civis-militares na América Latina. As incongruências são muitas. Claro que existem aqueles que são coerentes e sensatos, e estes são muito respeitados, ainda que nunca sejam ouvidos. Considerando os resultados das eleições nos Estados Unidos, causa estranheza que a população descendente de latinos aprove a candidatura de um homem que declara abertamente o horror que sente por eles. Quem disse que a classe operária possui o foro privilegiado de notar as contradições do capital? Quem disse que o escravo, o proletário, o explorado olhará o mundo com mais acerto do que o senhor, o burguês, o bem-aventurado? E quem disse que saber do horror implica, necessariamente, em esperança ou em revol- ta? Sociólogos vão chamar esse apoio ao próprio algoz de alie- nação ideológica. Eu chamaria de Síndrome de Estocolmo. Um 225 de 244