A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 225

Um regime de homens cínicos UM REGIME DE HOMENS CÍNICOS André Luiz Pinto da Rocha Governos são colossos que suportam as mudanças, ainda que as odeiem, uma monotonia ao que se chama de história. Não há maior pesadelo para eles que o vento da mudança, a possi- bilidade de, inesperadamente, outro governo os substituir. Uma imagem que define a vida dos governos é a vida dos organismos, que, com forças crepusculares, resistem a todas as erosões. Ma- quiavel compreendeu a alma dos governos ao escrever que, quem obtém o poder, tem por meta fazer o que está ao alcance para mantê-lo em mãos. Há um fascínio pelo poder da parte de quem o conquista. Como talvez também dissesse Nietzsche, em outra versão do Zaratustra: “vais ter com políticos? Não esqueças do chicote!”. 1 Reino dos chacais, de cães sem dono, quem se mete em política precisa saber que vai sujar as mãos. A virtú é a luta contra a entropia, o desespero de saber que tudo, desde o começo, já tem os dias contados. Como economis- tas costumam dizer, de tempos em tempos, fecha-se um ciclo. São períodos em que reina a ânsia, ora marcados pelo medo, ora pela esperança. Entre as esperanças desses períodos, está a me- galomania de acreditar que tudo será resolvido. Mas a alegria de uns rivaliza com a tragédia dos outros. Em geral, uns são sempre bem poucos. Cedo ou tarde, os governos acabam mostrando a 1 Trata-se de uma paródia de um trecho de Assim falou Zaratustra (Nietzsche, 1989, p. 82): “vais ter com mulheres? Não esqueças o chicote!”. 224 de 244