A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 206
A democracia banida
2004, p. 190). O que essa crítica demonstra, segundo Stirner, é
que o humano não existe fora da cabeça dos intelectuais, é ideia,
espectro, portanto, enquanto o inumano estaria em toda a parte.
O inumano é, então, o real, aquilo que existe de fato, e o crítico
ao tentar demonstrar que isso não seria humano, afirmaria ape-
nas uma tautologia (Stirner, 2004, p.190).
O referencial continua sendo, então, o humano e a relação
é logocêntrica binária: homem/inumano. No entanto, podemos
considerar no texto stirneriano o inumano como um primeiro
momento da desconstrução: a inversão, ou seja, quando o inu-
mano toma o lugar do homem tradicionalmente aceito pelos pa-
drões reconhecidos socialmente.
Segundo Stirner, o monstro inumano afirmaria: “Tu me cha-
mas de inumano [...] e de fato sou-o para ti. Mas sou apenas porque
tu me contrapões ao humano” (Stirner, 2004, p. 190-191).
O que a sociedade busca e aceita é o homem definido e com-
preendido a partir de certos padrões de humanidade- o homem
bom, temente a deus, respeitoso da pátria, família, tradição ou
propriedade privada, o homem dos valores morais socialmente
aceitos. Valores democráticos clássicos se confundiriam com es-
ses valores que engendram dimensões morais e políticas tradi-
cionais. Tudo aquilo que foge a essa regra pré-estabelecida, que
coloca o indivíduo à margem, como marginal, portanto, faz par-
te do inumano. O inumano iria contra as regras e valores ditos
saudáveis para o convívio social.
Cabe lembrar em parênteses que sob essa perspectiva, mes-
mo o homem de Stirner em sua singularidade, a singularidade do
próprio, o eu egoísta, seria sempre um ser desprezível na medida
em que não buscaria mais “‘o melhor de si’ fora de si mesmo”
(Stirner, 2004, p. 191). O egoísta de Stirner, fruto de um desloca-
mento desconstrutor, poderíamos dizer, não poderia ser definido
por parâmetros universalmente válidos, unitários, nem tampou-
co a busca de sua humanidade como homem poderia ser encon-
trada no inumano. Afinal, como ressalta Stirner, o “inumano que
sonha com o humano” ainda busca o seu verdadeiro eu no ho-
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