A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 203

A democracia banida lamos em desconstrução, o substantivo ‘ético’ e não a ética. Jus- tificando conforme Bennington: [...] então a “ética” não poderia deixar de ser um tema e um objeto da desconstrução, um tema para ser desconstruído, mais do que admi- rado ou afirmado. A ética é completamente metafísica, não poden- do, portanto, jamais ser simplesmente assumida ou afirmada pela desconstrução. A demanda ou o desejo por uma “ética desconstru- cionista” são, nesse sentido, fadados à frustração. (2004, p. 9). A hospitalidade anteriormente referenciada nos garante não apenas a lei da morada, mas o ethos do ético. A hospitalidade para ser completa, para poder ser totalmente preenchida neces- sitaria ser incondicional. Uma lei incondicional que anunciaria a chegada do outro sem condições, sem querer saber a proveniên- cia, a origem, o endereço, o nome. Aqui aparece o ético como hospitalidade irrestrita ou hiperbólica. O ético seria, então, o acolhimento do Outro de modo irrestrito e inesperado, sem a in- tenção de trazê-lo ou associá-lo a qualquer identidade já dada, ou seja, o outro a quem se acolhe, aparece e se mantém como Outro, a alteridade sendo preservada em sua diferença completamente. Inspirado em Levinas, Derrida defenderá que o ético da desconstrução compreende o acolhimento do Outro, a alteridade implica em acolhimento e como em Levinas o ético significa um desvio com relação aos centrismos da ética clássica. Toda rela- ção com o Outro não representa mais duas identidades distintas buscando a universalidade e a alteridade, não está de antemão resguardada na identidade. Para a desconstrução a singularidade do Outro não se submete à lógica identitária do mesmo. O ético em Derrida tem ainda conotação política, isto é, anuncia o por vir da democracia, assim como anuncia o por vir da justiça enquanto surge como deslocamento de todos os cen- trismos da ética e da metafísica tradicional. Como desconstru- ção ele é o universo da diferença, postula-se como desvio com relação à ética tradicional que estava fundamentada na solidez do logocentrismo, do antropocentrismo e dos humanismos de 202 de 244