A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 202
A democracia banida
A outra noção sempre presente na atual ideia de democracia é
a de comunidade. Derrida também irá questioná-la, pois não acre-
dita que ela represente um grupo harmônico, consensual. Basta
considerar a situação discordante entre os membros dessa mesma
comunidade, ou uma situação de guerra entre eles. Diz Derrida: “
Não gosto muito da palavra comunidade, não estou nem mesmo
certo de se eu gosto de tal coisa” (Derrida, 1992, p. 366).
Assim sendo, a comunidade possui uma identidade comum,
é verdade, mas ao mesmo tempo, um procedimento de autode-
fesa que acaba se convertendo em fechamento, o que a coloca
do lado inteiramente oposto do que Derrida entenderia como o
deixar vir o outro, o abrir-se ao outro, a aceitação do diferente,
segundo William Corlett (1993). Neste sentido, a noção de co-
munidade possui muito de excludente, pois devendo considerar
um exterior, além do interior, acaba por não reconhecer o fora,
guardando-se dele e em muitos casos, produzindo contra ele
uma closura autodefensiva (Corlett, 1993).
A ideia de comunidade aceitável para Derrida seria uma
possibilidade, um sonho por vir, seria “uma outra comunidade”,
“uma quase-comunidade aberta”, “uma comunidade por vir”,
uma “comunidade sem comunidade” (Derrida, 1994, p. 331).
Assim sendo, também as ideias de identidade e comunidade
estariam desconstruídas em uma democracia por vir. Esta ideia
de democracia, segundo Derrida, nós não sabemos ainda o que
seja realmente em toda a sua extensão, mas certamente podemos
torná-la mais próxima quando possibilitamos a hospitalidade
para com o outro que ainda não conhecemos e ao qual, mesmo
assim, não impomos qualquer condição. Para Derrida, a velha
palavra democracia é ainda a melhor que encontramos para a
espera de algo novo, para a afirmação do outro de modo poroso,
permeável e aberto (Derrida, 1996b, p. 103ss). Democracia é o
nome para o que está por vir, para um futuro imprevisível, para
a promessa de um futuro imprevisível (Caputo, 1997, p. 123). A
noção de democracia por vir implica, também, a questão ética.
Porém, para Derrida, comprometer-se com uma ética é situar-se
no domínio logocêntrico da mesma. Daí adotarmos quando fa-
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