A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 198

A democracia banida to aporético do pensamento e de uma experiência do impossível, tomadas como denúncias do privilégio do logos (logocentrimo) ou do falo-logos (falogocentrismo) ocidentais. Ao invés de condi- ção para o imobilismo, como se poderia aparentemente deduzir, essa experiência do impossível (a invenção do outro como o in- contornável, o dom, a hospitalidade como o impossível) seria um movimento em direção à decisão: a indecidibilidade (indecidabi- lité) que acontece em todo o momento de decisão. A desconstru- ção como pensamento da indecidibilidade irá situar-se entre as estratégias do contexto ético- político naquilo que ela pode tra- zer, guardando as conotações e expressões derrideanas, de meio caminho (milieu) para a decisão, de rastro (trace), de chance e risco, por exemplo. São essas questões de cunho éticopolítico que podem ser desdobradas na dimensão do que Derrida chamou de democracia por vir (démocratie à venir), ou seja, um movimento para o que vem, um ad-vir. O que Derrida intenciona mostrar com a noção de democra- cia por vir é que a desconstrução dos discursos universalizantes que ocultam interesses particulares, setorizados e na maioria das vezes mesquinhos possibilita dar visibilidade a este ocultamen- to. Esses discursos, muitas vezes encapados por uma aparente solidariedade ou fraternidade, promovem a segregação de todos aqueles de diferentes etnias, religiões ou nação, como pertencen- tes à categoria de “humanidade”. O discurso universalizante que propõe considerar todos os homens como iguais ou irmãos acaba por rejeitar os diferentes e produzir historicamente efeitos de ex- clusão dos mais atrozes e sanguinolentos. Uma democracia por vir situaria o viés democrático numa categoria para além de todos esses interesses mesquinhos, para além de toda aparente fraternização. Mesmo considerando que as democracias ocidentais existentes possam ser o que de me- lhor conseguimos construir no presente, Derrida observa que as atuais estruturas democráticas são, na verdade, profundamente antidemocráticas. Estão corrompidas em múltiplos aspectos eco- nômico-políticos, sociais e morais bastante conhecidos mundial- mente. Democracia plena não existe para Derrida, e a descons- 197 de 244