A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 178

A singularidade e os direitos humanos na sociedade democrática A concepção arcaica de religião Outro ponto bem destacado por Michel Henry no segui- mento do texto é de que “se dermos uma olhada nas sociedades mais arcaicas temos razão para pensar que todas elas foram so- ciedades religiosas” (2014, p. 414). Mas Henry aqui está se refe- rindo à religião compreendida primitivamente. Para ele, a nota distintiva da religião primitiva não é o ateísmo, muito menos o politeísmo, e isto só perceberemos se ampliarmos paradoxal- mente a questão. Qual a razão de ser das religiões na sociedade humana? O que significa o ato religioso enquanto tal? Essas questões ajudam não só a perceber, mas também, con- siderar que o homem não é o fundamento de si mesmo. Indubita- velmente, o fato é que os homens primitivos não aprenderam a fa- lar de si mesmo e da sua origem através de um sistema conceitual ou devido à astúcia científica ou, ainda, a partir de sistema cons- truído com artífices tautológicos que buscassem a universalida- de, senão que a tivessem experimentado em si mesmos, em sua vida cotidiana, pois viviam a vida em uma passividade radical. E esta vivência radical não era somente com relação a si mesma, se não que se manifestava na relação com fenômenos naturais. A maior angústia da vida que o nosso autor destaca é que a vida emerge da própria vida: de sua condição, de seu poder. Esta condição de estarmos jogados na vida sem sabermos e sem ter- mos escolhido querer estar aí onde nos encontramos. É isto que constitui para todo aquele que vive, ou melhor, que é vivente, a experiência original do sagrado, e o converte em um ser religio- so. A religião, portanto, não pertence ao homem em qualidade de experiência, mas mais singular que isso, pertence a sua essência, isso torna o homem, um ser religioso por essência. A religião, para Henry, designa o vínculo íntimo de vivente com a vida, pois é dela que recebe sua condição de vivente, condição essa que o faz experimentar tudo o que experimenta. Dentro da concepção arcaica de religião, dentre todos os seus ritos, o sacrifício é tido como uma significação exemplar, pois os 177 de 244