A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 177

A singularidade e os direitos humanos na sociedade democrática balho, os indivíduos afetados se reúnem e a partir da variabilida- de de suas opiniões é que se encontram soluções para os proble- mas. E essas não são teóricas, mas práticas; não vem de fora, mas surgem de dentro da comunidade. Por isso, elas não são soluções idealizadas por agentes externos, mas concretas. Não são deci- sões de caráter autônomo, mas de caráter heterônimo. Não se busca eliminar as diferenças para posteriormente encontrar um princípio universal, pois, se isso acontecesse, teríamos uma so- ciedade que construiria a igualdade a partir de um fundamento que é em si mesmo exterior a vida de cada um. E se uma decisão tomada em comum tem o caráter de legitimidade e submissão a ela é justamente pelo fato de ter surgido de um comum acordo. A ideia democrática, ou seja, a ideia de uma comunidade que deci- de a partir de sua realidade, a sua organização e seus fins, toma corpo nessa situação. A ideia democrática origina-se, então, no âmbito da ativi- dade social. Daí surge segundo Henry, uma divergência decisiva, pois esta atividade acaba desdobrando-se em social e política. Essa divergência faz com que a atividade social não se realize espontaneamente, mas converta-se em objeto de reflexão. A ideia de reflexão surge em prol da necessidade de integrar a ação parti- cular em um conjunto mais amplo, ou seja, em um sistema global das ações que inaugura a abertura de um novo campo para a po- lítica, cuja origem, como asseveramos acima, não pertence mais ao âmbito da ação espontânea, mas ao conhecimento. Trata-se agora de integrar a ação particular em conjunto com ações uni- versais a partir do conhecimento. Henry não deixa de exempli- ficar que é na Grécia onde se experimenta pela primeira vez a abertura do mundo; “É na Grécia” como esquecê-lo? Que apare- ce a surpreendente definição de homem como animal político” (Henry, 2014, p. 414). 176 de 244