A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 167

Política e teoria social na concepção de Ortega y Gasset do por estes a enormidade de conhecimentos parciais e de eficiência prática que hoje tem o homem médio e de que sempre careceu no passado). Depois de haver metido nele todas estas potências, o século XIX o abandonou a si mesmo, e então, seguindo o homem médio a sua índole natural, fechou-se dentro de si mesmo. Desta sorte, en- contramo-nos com uma massa mais forte que a de qualquer época, mas, à diferença da tradicional, hermetizada em si mesma, incapaz de atender a nada nem a ninguém, acreditando que se basta ‒ em suma: indócil. (Ortega y Gasset, 1987, p. 184). Lembre-se que os termos “massa” e “nobre” não são, em Or- tega, conceitos sociológicos nem encobrem o menor significado psicológico. São sim, para o pensador de Madrid, modos de ser e categorias existenciais anteriores à individualidade humana iso- lada, ao ‘eu’ objeto da aplicação da metodologia científica na psi- cologia ou na antropologia (o eu inserido em ambientes culturais já configurados); são na verdade estruturas ontológicas do ser do homem, abstração feita de sua “hominidade” meramente ôntica e isso no mesmo sentido que leva a diferença entre ôntico e on- tológico em Heidegger (a constituição ontológica do Dasein). Seu nódulo é definido pelo nosso filósofo com simplicidade e clareza: Para mim, nobreza é sinônimo de vida esforçada, posta sempre a superar-se a si mesma, a transcender do que já é para o que se propõe como dever e exigência. Desta maneira, a vida nobre fica contrapos- ta à vida vulgar e inerte, que, estaticamente, reclui-se a si mesma, condenada a perpétua imanência até que uma força exterior a obri- gue a sair de si. Daqui que chamemos massa a este modo de ser ho- mem ‒ não tanto por ser relativo à multidão, quanto porque é inerte. (Ortega y Gasset, 1987, p. 183). Ora, essa caracterização do homem médio atual, o qual para Ortega é, antes de qualquer outro, o que se enquadra na ca- tegoria “massa”, é indicativa da sua concepção da política. É a au- to-exigência, esse sair-de-si para resgatar-se em uma integração e acordo mais autêntico consigo mesmo, o buscar estar sempre acima de si mesmo a cada vez, que ele chama “nobreza” ou “vida esforçada”. Em contraposição à vida vulgar, não sendo esta mais 166 de 244