A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 166
Política e teoria social na concepção de Ortega y Gasset
segue: pelo usufruto ilimitado da mais ampla segurança que a ci-
vilização em que surgiu lhe oferece e, ao mesmo tempo, pelo des-
prezo pelas próprias normas de vida, valores e princípios que essa
mesma civilização pressupõe para existir, portanto pelas causas
mesmas do seu bem-estar; “[...] a livre expansão de seus desejos
vitais, portanto, de sua pessoa, e a radical ingratidão por quanto
fez possível a facilidade de sua existência” (Ortega y Gasset, 1987,
p. 178). Para Ortega, como ao abrir os olhos o homem médio
atual encontrou, no essencial e já à sua disposição, um mundo
extraordinariamente bem organizado sem seu prévio esforço,
comporta-se com a civilização como se ela fosse natureza, como
se ela tivesse estado aí desde sempre como as pedras e as plantas
da biosfera, e não lhe ocorre que para que uma tal civilização
seja possível é necessário que existam pessoas de personalidade
e de vitalidade valiosas e superiores, que são sempre as que se
separam dos grupos sociais por razões especiais. Ele não con-
sidera que existem condições existenciais e morais, sacrifícios e
atitudes por trás da possibilidade de uma civilização como a da
qual ele mesmo retira a extensão do contorno que sua vida tem e
o ‘direito’ a dar curso livre aos seus desejos. É por isso exatamen-
te que inexiste nele senso de gratidão e de estima verdadeiros:
afinal, não se agradece a ninguém pelo ar que se respira. Con-
sequentemente, como ele não vê as obras da civilização como
criações que apenas uma minoria especialmente dotada vital e
espiritualmente é capaz de realizar ‒ sabemos como para isso é
preciso que a vida se converta em algo mais que na resolução das
vicissitudes da existência cotidiana, mas tenha caráter de intrans-
ferível e exclusiva missão, portanto, que seja uma ação válida em
si e por si mesma para quem a realiza, como um ideal ‒ limita-se
a exigi-las peremptoriamente como direitos nativos. Destaco a
passagem abaixo:
O mundo organizado pelo século XIX, ao produzir automaticamente
um homem novo, meteu nele formidáveis apetites, poderosos meios
de toda ordem para satisfazê-los ‒ econômicos, corporais (higiene,
saúde média superior à de todos os tempos), civis e técnicos (enten-
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