A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 139
Sartre, democracia e liberdade
vista privilegiado ou recorre a alguma instância transcendente (a
priori, transcendental, Deus, etc.); nem recorrerá ao argumento
de autoridade, que fez das ciências (sobretudo aquela da alma
e aquelas sociais) a atividade de homens especiais, que se colo-
cam do ponto de vista absoluto, que lidam com os demais homens
como se fossem seus objetos. A filosofia não é mística, não exige
iniciação, não tem um mestre que ensinará o caminho: é ontolo-
gia fenomenológica, é filosofia da liberdade.
A liberdade também tem a sua história: Sartre mostra que
ela foi confundida com a possibilidade de escolher entre alternati-
vas dadas, que ela foi identificada à vontade (ainda hoje, não falta
quem pergunte, se o homem é livre por que não se pode fazer tudo
o que se quer?) e que a tônica das éticas sempre foi a supressão da
liberdade. O problema é que, neste contexto, nega-se a liberdade
livremente pois, partindo da descrição ontológica sartreana, foi
livremente que Kant mostrou os limites da razão, que Heidegger
revelou seu Dasein como ser-para-a-morte e que Husserl gastou
seus dias reiniciando uma filosofia que, por se almejar absoluta-
mente pura, consumiu sua vida e fracassou. Isso porque de fato
o homem é liberdade, mas essa liberdade jamais significou que
ser livre é poder escolher a vinculação com o mundo (como se
passaria com almas bem-aventuradas). De modo algum; todo
homem é livre
[...] enquanto aparece em uma condição não escolhida por ele, na
medida em que Pedro é burguês francês de 1942, que Schmitt era
operário berlinense de 1870; é, enquanto lançado em um mundo,
abandonado em uma ‘situação’; é, na medida em que é pura contin-
gência, na medida em que, para ele, como para as coisas do mundo,
como para esse muro, esta árvore, este copo, pode-se fazer a pergun-
ta original: ‘Por que este ser é assim, e não de outro modo?’ na medi-
da em que existe nele algo do qual não é fundamento: sua presença
ao mundo. (Sartre, 2011, p. 128).
Todo homem, seja Pedro ou Schmitt, está lançado no mun-
do; o homem é para-si que, em meio a outros para-sis, existe no
mundo (situado) numa relação de negação de objetos e objetiva-
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