A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 138
Sartre, democracia e liberdade
pergunta Sartre ainda no plano ontológico, o que o ser-para-si
busca para se realizar? Evidente que não adiantaria perguntar no
plano existencial, pois os projetos de ser homem são tão numero-
sos como o é o número de homens que existem; mas quando a
pergunta é levada para o plano do ser-para-si encontra-se a nega-
ção: ser homem é não ser essa mesa, essa cadeira, esse espelho (ele
é tudo o que não é em-si) o que, no plano existencial se concre-
tiza em cada existência; o homem é o ser que está em constante
mudança, algo lhe falta. Ao homem no mundo falta tudo, amor,
posses, reconhecimento, poder, salvação, etc. A ontologia fenome-
nológica permite que se passe do plano ontológico ao existencial
(método progressivo-regressivo): o ser-em-si em sua identidade
encontra-se no mundo (mesa, cadeira, copo, etc) como aquilo que
não é o para-si. Na contrapartida, o para-si não cessa jamais seu
movimento negativo: há algo a ser realizado que jamais se reali-
za, e toda tentativa de realização fracassa nos momentos em que
o homem tenta fazer-se coincidir consigo (tal qual um cinzeiro é
um cinzeiro). Assim, Pedro é garçom porque finge sê-lo, mas ele
não realiza jamais sua identificação com aqueles gestos, roupas e
modo de agir; de todas as maneiras, passará a sua vida tentando:
quando criança se queria jovem, agora jovem garçom ele se quer
gerente do restaurante, e esse movimento apenas terá termo com
a sua morte. É daí que Sartre descreve o modo de ser ideal, em-si-
-para-si – aquilo que motiva o homem no mundo – que será reali-
zado enquanto um projeto de ser individual que brota da escolha
de ser em sua situação (o garçom pretende ser gerente, o gerente
proprietário, e assim por diante): homem é para-si, é liberdade, é
falta. Mas liberdade situada: caso a situação seja negligenciada,
resulta em noções mirabolantes do ser-livre-no-mundo que fal-
seiam a liberdade sartreana. O homem é liberdade em situação,
então a liberdade seria a sua essência? Não. Mas também não é
preciso predisposição metafísica para admitir que o homem no
mundo vive em relação com seu entorno, que o homem é diferen-
te dos demais objetos e que ele jamais se realiza: ele existe como
negação, volta-se negativamente ao em-si no intuito de realizar o
ser-em-si-para-si. A ontologia sartreana não funda um ponto de
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