A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 123
Aportes para pensar a democraciaa partir de Jonas e Levinas
sendo uma iniciativa do eu, não estariam os seres naturais nos
convocando também a um outro modo de usar os recursos da
natureza? Reconhecer uma dignidade própria nos seres naturais
talvez passe por deixar de vê-los pura e simplesmente como pro-
priedade e como bens de uso, reconhecendo neles uma alteridade
que convoca o eu a uma responsabilidade por eles uma vez que a
vida não é um dom exclusivo dos seres humanos. Uma existên-
cia egoísta, definida essencialmente como esforço de autopreser-
vação e de autoconservação, alimentadores de competitividade
cada vez mais acentuada entre seres humanos e suas sociedades,
está por trás de uma economia industrial que vê a natureza ex-
clusivamente como recursos a serem explorados e utilizados para
nossa própria satisfação, não reconhecendo nela nenhum outro
valor para além do valor de uso. O atual estado de fragilidade
e vulnerabilidade da natureza não estaria também nos obrigan-
do e convocando a uma outra economia e a um outro modelo
de desenvolvimento mais desinteressado e menos depredador?
Não estariam os seres não humanos também em condições de
se imporem moralmente a nós, exigindo de nós atenção, cuida-
do e acolhimento? A estrutura da ética levinasiana, que resiste a
todo movimento de totalização, não pode ficar então reduzida
aos seres humanos e às relações inter-humanas, mas precisa se
expandir a todos os demais seres, reconhecendo sua dignidade
moral e suas exigências éticas. Essa dignidade moral da natureza
se funda em sua característica de não poder ser humanamente
orientada ou de não se sujeitar aos fins humanos, mas de ser au-
tônoma no sentido de emergir de um processo natural intrínseco
a ela mesma. A alteridade da natureza consiste justamente em ser
de um modo inteiramente outro e o homem precisa encontrá-la
e respeitá-la nesse estado, deixando-a ser segundo suas próprias
leis e fins, de modo que ela seja uma presença a nós ou diante de
nós, obrigando-nos a ouvir seus clamores e abrindo-nos a uma
mudança de atitude ou a um outro modo de nos relacionar com
a natureza para além do modo utilitarista. Uma abordagem feno-
menológica da natureza como a que permite a ética levinasiana
tem então o poder de nos despertar para nossa própria respon-
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