A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 121
Aportes para pensar a democraciaa partir de Jonas e Levinas
-se então a assimetria que caracteriza o face a face e impõe-se a
simetria exigida pela igualdade de todos os cidadãos. A respon-
sabilidade ética ganha assim uma dimensão jurídica e social. No
entanto, a política aqui é secundária e deriva da estrutura ética
que a funda. Ela só pode então ser pensada como interrupção da
ética. Quanto mais se afastar do face a face, maior o perigo de
que essa relação seja vista como de oposição e de violência.
Mas se a política é pensada sempre a partir de uma tensão
com a ética em que ela se funda, podemos admitir as dificuldades
de que a política, por si mesma, seja capaz de traduzir a respon-
sabilidade pelo outro. A política vista e compreendida dentro de
um sistema ou de uma totalidade se sujeita ao risco constante de
esquecimento do outro e de suas demandas. Um ético fundido
ao político, base de todo totalitarismo, corrói pela base a respon-
sabilidade pelo outro. A responsabilidade jurídica e social é um
vínculo com muitos outros que já perderam sua singularidade e
se apresentam sem um rosto. A arma levinasiana contra as dife-
rentes formas do totalitarismo político é a manutenção da exte-
rioridade ética em relação às instituições políticas. A autonomi-
zação da política comporta sempre o risco da política autoritária.
As demandas éticas da alteridade devem assim poder importu-
nar e interromper a política como aquelas alteridades vindas dos
movimentos sociais e do movimento operário, dos camponeses
sem terra e dos sem-teto, dos estudantes e indígenas, negros e
mulheres cujas demandas tendem a ser negadas na totalização
operada pelo Estado. Uma verdadeira democracia não pode ga-
nhar os contornos de uma institucionalização excessiva, defini-
tiva ou rígida, mas tem de ser manter sempre aberta à crítica e
à invenção de novas estruturas quando as antigas se mostrarem
inadequadas ou incapazes de atender às novas exigências das no-
vas alteridades que as desarranjam e inquietam. A ética obriga
então a política a uma revisão constante, a um recomeço perma-
nente, impedindo-a de se autonomizar, denunciando-a quando
ela permanece silenciosa ou muda diante das novas alteridades
que denunciam seu afastamento da responsabilidade ética do eu
singular pelo outro. Não há modelos fixos e permanentes de de-
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