A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 120

Aportes para pensar a democraciaa partir de Jonas e Levinas de fugir à ordem do outro, sem voltar a si. Eis a consciência mo- ral como a fonte da filosofia (Levinas, 1994, p. 88). A liberdade tal como ela é pensada pelo Liberalismo não passa de alienação e somente a responsabilidade que pode desa- lienar o eu, abrindo-o à socialidade. É o sujeito responsável que se descobre refém do outro e só ele é o sujeito plenamente huma- no, não sendo a liberdade a condição de minha humanidade. A responsabilidade não anula a alteridade, mas responde às suas demandas. Se o comando vem de fora da história, a resposta, no entanto, só pode ganhar uma dimensão histórica e se revestir em gestos de dar pão ao faminto, de vestir o nu, assistir a viúva e o órfão, acolher o estrangeiro, etc. Se a política kantiana permite a indiferença diante das exi- gências da alteridade uma vez que ela só me exige a legalidade como condição para o convívio social e não a moralidade, aqui a democracia se vê diante da responsabilidade social de construir a justiça social de tal modo que as demandas do outro sejam es- cutadas e atendidas. A responsabilidade não é um chamado in- terior da consciência, mas um engajamento carnal para aliviar o sofrimento do outro. Não há nenhum quietismo político na filosofia da alteridade uma vez que até mesmo Deus é associado à dimensão ética da relação inter-humana. Mesmo que a ética tenha uma natureza escatológica, não há como desvencilhar a resposta da história e do mundo uma vez que ela deve se traduzir em gestos concretos. A tensão entre ética e política Se em Jonas, passa-se do modelo de responsabilidade paren- tal, de base ética, para o da responsabilidade pública, de natureza política, em Levinas essa passagem se dá quando os terceiros se impõem como os muitos outros do outro que abrem a relação ética do face a face ao domínio da pluralidade social. Rompe- 119 de 244