A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 113
Aportes para pensar a democraciaa partir de Jonas e Levinas
ética uma vez que elas tornam impossível o processo de singula-
rização dos sujeitos e a proximidade do face a face. A economia
em Levinas não é somente aquilo que torna possível a abertura
ao Infinito, mas também é ela que produz a totalidade (Vioulac,
[s.d.], p. 141). Essa relação econômica primordial permite abrir
um domínio diferente do da ontologia.
Ao retirar as coisas do elemental, “o trabalho as transforma
em substâncias duráveis, mas suspende logo a independência de
seu ser durável ao adquiri-las como bens móveis, transportáveis,
colocados em reserva, depositados na morada” (Levinas, 1988, p.
144). “É a atividade econômica de produção que institui a subs-
tância como presença constante” que então ganha independên-
cia do sujeito que a produz (Vioulac, [s.d.], p. 142). A produção
industrial permite um distanciamento cada vez maior entre o
produtor e o seu produto, preparando sua degradação até o ní-
vel de mercadorias e sua generalização através do dinheiro, raiz
primeira da “alienação ontológica”, a primeira injustiça que é a
responsável pela instituição tanto da história como da totalidade
(Levinas, 1991, p. 38-39).
A economia, como a situação propedêutica à ética, repre-
senta o domínio da fruição egoísta e solitária, um estado separa-
do e anônimo. Se a fruição dos elementos como primeiro estágio
de constituição do sujeito ainda no nível da corporalidade se re-
sume ao consumo de alimentos, as coisas das quais nós vivemos
não são utensílios, mas objetos de fruição. E os objetos dos quais
nós fruímos já sofreram a ação de um trabalho, tornando a frui-
ção segunda em relação ao trabalho que arranca as coisas ao ele-
mental, ao mundo. Na linha marxista de pensamento, é a produ-
ção que é primeira e se torna impossível analisar o trabalho sem
levar em conta a própria divisão social do trabalho que impõe
um certo modelo de troca de produtos do trabalho. Consequen-
temente, a economia impõe um certo modelo de vida social ou
um modo de se relacionar com o outro. O que fica evidente é que
a fruição é um estado de alienação da alteridade ou mesmo um
estado de exploração do outro. As transformações que o mun-
do sofre através da industrialização apenas modificam superfi-
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