A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 112
Aportes para pensar a democraciaa partir de Jonas e Levinas
do corpo não encontra nem refúgio nem lazer em si já que o Da-
sein nunca tem fome. Nas palavras de Vioulac, Levinas deixa ver
aí que “há um modo de produção possível que não somente não
abre à relação ética, mas condena os trabalhadores à ausência de
morada ou que há um regime econômico que impede a relação
ética” (Vioulac, [s.d.], p. 136).
Aparece aqui o que o mundo tecnológico deixa ver. A técni-
ca, associada à ciência matemática, opera um saber universal de
uma razão impessoal portadora de um poder de neutralização
que condena os homens ao anonimato, impedindo de se verem
no face a face. É a técnica que uniformiza as relações pessoais,
dando-lhes contornos totalitários uma vez que os indivíduos não
se perdem apenas no todo anônimo e impessoal do estado, mas
também a economia opera uma desindividualização do indiví-
duo. A economia industrial cria uma humanidade vivendo no
universal (Levinas, 1994, p. 146). “Um estado homogeneizado
não é mais que o coroamento da sociedade industrial” (Levinas,
1994, p. 75). “A injustiça pela qual o eu vive numa totalidade é
sempre econômica” (Levinas, 1991, p. 40). Vê-se assim que a to-
talização econômica realiza uma corrupção do indivíduo ainda
mais violenta que a totalização política que ocasiona apenas uma
violência sobre a exterioridade das pessoas enquanto a primeira
obriga a interioridade do sujeito a se imiscuir no meio da exterio-
ridade para aí submetê-lo ao objeto (Vioulac, [s.d.], p. 139). Le-
vinas reconhece assim a possibilidade de uma economia imoral
que corrompe a interioridade por completo. E o princípio dessa
imoralidade é o “anonimato do dinheiro” que é puro poder de
objetivação e universalização que destrói a identidade e apaga o
Rosto. As coisas não têm Rosto porque podem ser convertidas
em dinheiro e têm apenas um preço. O intercâmbio econômico
impõe o anonimato e impede o face a face. A vontade do tra-
balhador presente no produto se ausenta logo que ela se torna
mercadoria (Levinas, 1994, p. 45). Todos assim acabam se sub-
metendo às forças impessoais do mercado, a outra forma cruel
do imperialismo ontológico. Assim, certos modos de produção
e certas formas de organização da economia impedem a relação
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