A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 107

Aportes para pensar a democraciaa partir de Jonas e Levinas do marxismo foi parcialmente realizado através do equilíbrio instável de princípios democráticos que sustentam a sociedade ocidental capitalista” (Schoefs, 2009, p. 101). Ela considera ainda que Jonas não conseguiu ele mesmo eliminar todo conteúdo utó- pico de sua reflexão ética já que sua “heurística do medo” conser- va um viés utópico, sendo que a diferença entre ambas as utopias reside no fato de que, em Jonas, contrariamente ao marxismo, esse estado futuro do homem não adquire os contornos de um paraíso terrestre na terra, mas ganha os contornos da ameaça de desaparecimento de toda forma de vida sobre a terra (Schoefs, 2009, p. 102). Para Schoefs, a possibilidade de um marxismo sem utopia é improvável e ela se pergunta se isso levaria à forma de gover- no esperada capaz de enfrentar o perigo tecnológico. Ela então examina cada uma das vantagens que Jonas atribui ao marxismo sobre o capitalismo para ver se, desprovido de tais vantagens, o marxismo seria ainda vantajoso. A primeira vantagem do mar- xismo sobre o capitalismo diz respeito à gestão mais racional de recursos que o primeiro asseguraria com mais eficiência (Jonas, p. 2006, p. 242), mas Jonas critica o esbanjamento de recursos da burocracia centralizadora marxista. A segunda vantagem é que o marxismo estaria em melhores condições de impor medi- das impopulares (Jonas, p. 2006, p. 244), mas ele admite que tais cidadãos só aceitam sacrifícios em nome de um futuro melhor. Suprimido esse ideal, os governos marxistas teriam dificuldades em impor sacrifícios à população. Em terceiro lugar, seria muito difícil convencer as pessoas a aceitarem formas de ascetismo e de moralidade rigorosos, sem a promessa de um futuro melhor (Jonas, p. 2006, p. 246). Quanto à última vantagem do marxismo, a de que ele traz um ideal de igualdade a se realizar na sociedade sem classes (Jonas, p. 2006, p. 248), Jonas vê tal ideal comprome- tido pelas hierarquias e relações de força dos governos marxistas centralizadores. Schoefs conclui então que um marxismo sem utopia não estaria em melhores condições de enfrentar os pro- blemas da sociedade tecnológica já que ele perderia sua força de influência sobre a sociedade (Schoefs, 2009, p. 104). 106 de 244