A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 103
Aportes para pensar a democraciaa partir de Jonas e Levinas
respeito do marxismo, como outros de seus críticos suspeitam,
limitando-se o autor demasiadamente apenas àquilo que dizem
seus dirigentes. Jonas vê uma associação muito próxima entre o
capitalismo e o desejo desmedido de lucro, mas isso o desautoriza
totalmente como um regime sócio-político-econômico sustentá-
vel? Estariam, nesse caso, todos os regimes políticos desprovidos
das armas que os tornariam capazes de enfrentar os problemas
ecológicos? Janicaud, por exemplo, ressalta que o capitalismo
não impede a emergência, em seu próprio seio, da alteridade e é
um dos sistemas que permite o surgimento da contestação e da
dissidência, colocando nele suas esperanças, como o demonstra
Virginie Schoefs (Schoefs, 2009, p. 85). Para Janicaud, Jonas não
fechou as possibilidades para que, do seio do capitalismo, sur-
gisse um outro sistema político capaz de responder às deman-
das ambientais e à crise tecnológica. Ainda Jacques Taminiaux
pensa que Jonas não examinou a fundo os regimes capitalistas,
pois nem todos eles são necessariamente democráticos como al-
guns casos de países da Ásia e o critica por igualar acriticamen-
te capitalismo e democracia (Schoefs, 2009, p. 85). Jonas parece
criticar o capitalismo apenas em sua fase ultraliberal, deixando
de lado outras fases do capitalismo como as democracias sociais
europeias que conservam a preocupação com a repartição das
riquezas e com a proteção social. Schoefs se pergunta se a Europa
não seria esse meio termo entre o comunismo e o capitalismo ul-
traliberal. Para ela, Jonas não demonstra convincentemente nem
a inaptidão do capitalismo para responder às demandas da crise
tecnológico-ambiental nem os limites das democracias para en-
frentar mais eficazmente o problema (Schoefs, 2009, p. 86).
Assim como Levinas não é um filósofo que se ocupa primei-
ramente da política, não se encontra tampouco em Jonas uma
teoria política totalmente elaborada. O Princípio Responsabilida-
de parece apontar algumas pistas nessa direção a partir da crítica
da utopia marxista que traria em si os germes de uma ética da
responsabilidade, mas não aponta claramente nenhum princípio
político, deixando aberto um impasse entre marxismo e capita-
lismo. Para Schoefs, Jonas não é fatalista e ela procura em suas
102 de 244