A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 102

Aportes para pensar a democraciaa partir de Jonas e Levinas -nascido, tomada por ele como o paradigma de toda responsa- bilidade, e a responsabilidade pública. O homem público cons- ciente de suas responsabilidades para com as gerações vindouras é pensado nos mesmos moldes dos pais que se responsabilizam pelos filhos (Jonas, 2006, p. 173ss). Uma tal analogia faz seus críticos suspeitarem de um tom paternalista e de um viés au- toritário que tal passagem comporta uma vez que o pai dispõe de um poder quase total sobre os que lhe estão submetidos. Já Aristóteles diferenciava a responsabilidade parental de tipo des- pótico da responsabilidade política que deve ganhar contornos democráticos. Uma das críticas de Jonas que vê alguns traços de autoritarismo em seu pensamento, Marie Geneviève Pinsart, não deixa passar como irrelevante o tom paternalista que Jonas empresta ao modelo usado por ele para pensar a responsabili- dade pública (Schoefs, 2009, p. 82). Cabe aqui então a pergunta: que tipo de democracia aparece no pensamento de Jonas? Com certeza, ele não dá seu aval puro e simples a regimes políticos que se apresentam como paternalistas e que assim possuam uma inclinação totalitária. Janicaud também reprova em Jonas a au- sência de uma dimensão política em sua reflexão ética como se ética e política fossem dois campos totalmente distintos e alerta para possíveis transposições simplistas de sua ética ao campo da política (Schoefs, 2009, p. 82-83). Kant já havia advertido sobre a dificuldade ou mesmo a impossibilidade de uma política total- mente moral. O que então da ética jonasiana pode ser aplicado ao campo da política? Se, por um lado, Jonas critica o socialismo pela burocracia de seus dirigentes, o capitalismo, por outro lado, não escapa à sua crítica por se apresentar como se fosse o único modelo de- mocrático ou por querer se confundir com a democracia. Para Jonas, ambos os sistemas econômicos políticos são herdeiros do ideal baconiano de dominação da natureza, responsável em grande medida pela crise ecológica em que nos encontramos (Jo- nas, 2006, p. 241). O relacionamento muito próximo de ambos com a técnica os condena de antemão. Podemos ainda suspeitar de uma ausência de crítica da parte de Jonas em sua análise a 101 de 244